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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Me dá um financiamento aí...

Universidades e Governo Federal oferecem programas de financiamento para estudantes

Quem não conseguiu passar no vestibular de uma universidade pública e não tem dinheiro para pagar a mensalidade de uma universidade particular tem outros meios para conseguir o ingresso no ensino superior. Além de programas governamentais, como o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), as três universidades particulares de Curitiba também disponibilizam de programas de financiamentos próprios.

Criado em 2004, o ProUni é um dos programas mais procurados por estudantes que não têm condições de pagar as mensalidades. Isso porque ele oferece bolsas para alunos que freqüentaram o ensino médio em escola pública ou em escola particular com bolsa integral, e que tenham uma renda familiar de até um salário mínimo e meio. De acordo com o site do programa, desde sua criação até o primeiro semestre deste ano, foram beneficiados mais de 350 mil estudantes, sendo 270 mil com bolsas integrais. Além disso, o ProUni ainda tem a Bolsa Permanência, paga para o aluno que tenha escolhido fazer um curso de período integral.

Ainda em nível público, o Fies é o programa de financiamento que há mais tempo funciona, desde 1999. A taxa de juros varia entre 3,5% a 6,5% podendo-se financiar até 100% do valor da mensalidade. Para participar desse financiamento, o aluno deve primeiramente saber se sua instituição está credenciada no programa. Dependendo de como aconteça o financiamento, ele pode ficar até 13 anos pagando as mensalidades. No site www3.caixa.gov.br/fies, é possível fazer uma simulação de financiamento.

Se o estudante não se enquadrar em nenhuma das exigências dos programas federais, existem outras opções. Na Universidade Positivo (UP), existe o programa de financiamento estudantil FIR, na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), o crédito universitário Pravaler e na Pontifícia Universidade Católica (PUCPR) há programas de bolsas e Fundo Solidário para financiamento. Se ainda assim o estudante não conseguir financiamento, ele tem como opção o Processo de Ocupação de Vagas Remanescentes (Provar), que não é um programa de financiamento, mas de reocupação de vagas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Veja no box abaixo as opções existentes e suas condições.

ProUni

O que é: programa do Governo Federal que oferece bolsas de 25%, 50% e 100%.

Quem pode participar: alunos que tenham feito o ensino médio em escola pública ou em escola particular com bolsa integral, renda familiar de até um salário mínimo e meio por pessoas e ter feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no último ano. (Dependendo da nota do Enem, o aluno pode não participar)

Site: portal.mec.gov.br/prouni/

Fies

O que é: programa do Governo Federal que financia até 100% das mensalidades.

Quem pode participar: alunos que estejam matriculados em instituições de ensino superior particular que já não tenham outra bolsa de qualquer outro programa. O aluno não pode ter disciplinas trancadas

Site: portal.mec.gov.br/sesu/

FIR – UP

O que é: programa de financiamento da própria UP concedido para 250 alunos por ano. O estudante que participar pagará metade da mensalidade. Quem fizer um curso de quatro anos, por exemplo, e tiver o financiamento desde o começo do curso, ficarão oito anos pagando metade da mensalidade, sem juros.

Quem pode participar: alunos, ou futuros aluno da instituição, que provem insuficiência financeira através do imposto de renda e ofereçam avalista.

Site: www.up.edu.br

Fundo Solidário da PUCPR

O que é: programa que financia até 75% da mensalidade.

Quem pode participar: alunos da PUCPR que comprovem insuficiência financeira e tenham um fiador que possua imóvel quitado e renda em torno de duas vezes o valor da mensalidade.

Site:www.pucpr.br/ensino/siga/bolsas

Crédito Universitário Pravaler da UTP

O que é: programa que financia até 50% das mensalidades em até o dobro do tempo do curso

Quem pode participar: alunos ou futuros alunos da UTP

Site:www.utp.br/divulgacao/pravaler/

Estude e ganhe

Programas do governo federal concedem bolsas para desenvolvimento científico

Para quem já está no ensino superior, esta dica pode ser valiosa se quiser desenvolver um estudo. São as bolsas de estudo oferecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

As ofertas do CNPq são feitas em editais publicados no site. Além de oferecer bolsas no país, o conselho também trabalha com oferta de oportunidades de estudar no exterior em programas de cooperação para a ciência. Existem dois tipos de bolsas: as individuais e as por cotas. As bolsas individuais são solicitadas diretamente no CNPq, já as bolsas de cotas são oferecidas às instituições de ensino e pesquisa e são solicitadas nesses locais. Somente as bolsas individuais têm programas de estudos no Brasil e no exterior, mas ambas financiam mestrados, doutorados e programas de iniciação científica nas instituições.

Além das bolsas, o conselho também tem a modalidade de auxílio, da qual existem várias modalidades, como apoio ao pesquisador e à divulgação científica. O programa de auxílio também funciona por meio de editais publicados pelo próprio CNPq. Esses editais são financiados pelo próprio órgão ou pelo Ministério de Ciência e Tecnologia.

Já a Capes desempenha um papel de impulsionadora do acesso ao mestrado e ao doutorado, além de fazer uma avaliação desses cursos no país. A oferta de bolsas pode ser conferida no site do órgão. Há bolsas tanto no Brasil como no exterior. Além disso, a Capes trabalha como uma divulgadora da ciência produzida nos cursos, tendo inclusive um banco de teses que pode ser consultado em seu site. Com a ajuda de um orçamento de mais de um bilhão de reais, o trabalho da Capes já ajudou a criação de 872 cursos de mestrado e 492 de doutorado no país, além de aumentar o número de alunos em mais 30 mil para mestrado e 19 mil para doutorado.

Se você ficou interessado em saber mais a respeito e quer desenvolver uma pesquisa, basta entrar nos sites dos órgãos. O site do CNPq é o www.cnpq.br. Para se candidatar aos editais, é preciso responder um formulário presente no endereço e ter currículo cadastrado na plataforma Lattes. Para a Capes vale a mesma dica, mas o site é o www.capes.gov.br. Apesar de haver poucos editais na área de Humanas, vale à pena entrar nos sites e garimpar uma oportunidade ou falar com sua instituição para saber sobre isso. É a chance de desenvolver conhecimento e ganhar mais do que uma boa nota com isso.

Experimenta!

Universidades têm oportunidade para estudantes desenvolverem seus projetos

Uma das primeiras experiências que muitas crianças têm com a ciência é a de plantar feijão no algodão. Um procedimento simples que mostra como a natureza funciona. Com o passar do tempo as pessoas começam a ter mais contato com a ciência, e a curiosidade vai aumentando junto com o interesse pela ciência, pois é preciso saciar todos os porquês que existam na cabeça, e quanto mais se conhece, mais perguntas aparecem.

O despertar do conhecimento é mais bem aprofundado quando se chega à universidade, local onde novas idéias surgem e onde as pessoas estão para aprenderem melhor. É claro que isso é uma visão um tanto romântica. Muitas pessoas ignoram completamente a ciência e também ignoram o fato de estarem no ensino superior, uma posição privilegiada quando a questão é conhecimento.

Mas para aqueles que realmente gostam de experimentar, de adquirir conhecimento e são interessados em ciência, a academia é o local mais que ideal para ir além da experiência do feijão. Uma das portas para isso é a iniciação científica, presente nas universidades curitibanas. Qualquer aluno matriculado nas instituições pode participar do processo, onde seu estudo será orientado por um professor da instituição.

A escolha de quais projetos serão aprovados é feita por comissões que julgam quais trabalhos devem ser financiados. O projeto pode ser voluntário ou pode haver o pagamento de uma bolsa. O aluno pode pesquisar em sua instituição se não há bolsas do CNPq, da própria instituição ou de outras fontes, como a Fundação Araucária, para iniciação científica, podendo ele ser pago para fazer seu projeto.

É importante o aluno estar atento às datas de início e término das inscrições para os programas, que geralmente são divulgados pelas próprias instituições. Cada academia tem seu critério para avaliar os projetos. Para ter um exemplo veja abaixo uma tabela que mostra como é feita a pontuação para a concessão de bolsas para a iniciação científica na Universidade Federal do Paraná.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

É o fim?

Festival Folclórico e de Etnias do Paraná vem perdendo público ano após ano.

por Rikardo Santana da Silva

O Paraná é um estado multicultural. Formado por várias culturas vindas da África, Europa, Ásia e da própria América. Para celebrar essa união de culturas, há mais de 40 anos é realizado no Teatro Guaíra o Festival Folclórico e de Etnias do Paraná, no qual vários grupos apresentam um pouco de sua arte. Tânia da Silva faz parte de um dos grupos folclóricos, o de portugueses, há mais de 15 anos, e constatou que o Festival vem perdendo público nos últimos anos. “Houve uma queda muito grande de público nesse evento que não deixa de ser um atrativo turístico da cidade de Curitiba”, conta.

Tânia fez em seu trabalho de conclusão de curso em Turismo, pela Universidade Tuiuti do Paraná, uma monografia sobre o Festival. A monografia mostra a história do evento e a importância dele para a cidade e para o estado. A autora fez uma pesquisa de campo com os curitibanos e constatou que poucas pessoas conhecem o Festival, mesmo fazendo parte já há tantos anos da programação cultural da cidade.

Esse desconhecimento acaba fazendo com que não exista uma ligação maior da população com suas origens ou com a cultura de outros povos, mesmo sendo considerada uma cidade multicultural. “Não existe uma divulgação do Festival. Se as pessoas que não têm acesso à cultura fossem avisadas sobre o evento, poderiam aproveitar essa oportunidade para visitar o teatro, já que os ingressos têm preços bem menores do que peças de teatro apresentadas no Guaíra. É uma oportunidade de ver a arte de outros países”, ressalta Tânia.

A falta de divulgação ocorre porque os grupos não têm dinheiro para fazê-la. Além disso, nos últimos anos, houve um aumento no número de grupos, mas não no de pessoas. “Acontece muita briga nos grupos, que acabam se dividindo, mas o número pessoas não aumenta. Acaba que ficam muitos grupos com poucas pessoas”, relata a autora. Outro aspecto que Tânia percebeu foi que esse tipo de manifestação cultural não é mais tão atraente aos mais jovens. “Nem todos tem tempo disponível para fazer isso, e quando tem, preferem ir para o shopping. Os jovens acham que é careta”, reclama Tânia.

A cada ano, com a queda de público, o Festival perde prestígio e acaba perdendo espaço. Como não havia retorno financeiro, o Teatro Guaíra começou a diminuir o número de dias que os grupos podiam se apresentar e o espaço também começou a ser mudado (do Guairão para o Guairinha). Há alguns anos, o evento ocorria em duas semanas no Guairão. Ano após ano, isso foi diminuindo, e hoje ele é feito em dez dias no Guairinha. A autora afirma que poderia haver uma maior abertura por parte do Festival, aceitando a entrada de qualquer grupo e melhorando a qualidade das apresentações, mas para isso é necessário que haja verba para os grupos, o que hoje não existe. “Os grupos não têm apoio, e isso faz com que não haja mais investimento no Festival”, conta Tânia. O Festival Folclórico e de Etnias do Paraná acontece todos os anos no mês de julho.

Fique longe de mim

O que é longe e o que é perto depende de cada um. Como as crianças criam essa noção?

por Rikardo Santana da Silva

O que você entende como longe ou perto? As percepções de perto ou longe variam de pessoa para pessoa. Por que temos essa diferença entre nós? O que nos faz pensar que algum lugar é longe ou perto? Seria essa uma construção feita pelos professores no nosso ensino fundamental? Além da noção de perto ou longe, também existe a questão da representação disso. Como construímos a imagem do nosso espaço?

Uma boa opção para avaliar isso é pelos desenhos que as crianças na faixa etária dos 7 a 11 anos fazem, para tentar identificar como eles representam seu espaço. Foi isso que a pesquisadora Michele Pereira decidiu fazer em sua dissertação de mestrado em Geografia na Universidade Federal do Paraná (UFPR): “Do próximo ao distante: A construção do conceito de espaço geográfico em crianças do ensino fundamental”. O estudo quis mostrar como essas crianças compreendiam seu espaço geográfico.

O estudo, feito com 20 alunos de 1ª a 4ª séries de uma escola municipal de Curitiba, mostrou que a perda de noção de espaço faz com que as crianças tenham dificuldade para localizar-se. Essa falta de noção, segundo a autora, é provocada pela pouca atenção dada à geografia. “O foco no ensino fundamental é ler e escrever e fazer equações. A geografia não é vista como algo importante, e muitos professores não têm formação nessa área. Se tivéssemos professores com formação específica nessa área, teríamos resultados diferentes. Até há cursos de alfabetização cartográfica na rede, só que não podem oferecer o aprofundamento teórico e empírico que temos na graduação”, afirma Michele.

A dissertação trabalhou com o conceito de espaço e lugar. “Tudo é espaço. A partir do momento em que eu me identifico com determinado espaço, em que eu me localizo nesse espaço e me sinto pertencendo a ele, esse espaço se transforma num lugar. O lugar é um espaço familiar”, explica. A partir dessa análise, a autora identificou que as crianças não tinham uma identificação com os espaços da própria cidade, pois não a conheciam. “Se a criança tivesse contato com esse lugar, andasse pelo bairro ou pela cidade, melhoraria a questão espacial. A pesquisa mostrou que, as crianças não demonstraram identificação nenhuma com a cidade de Curitiba”, confirma.

Os resultados mostraram que o quesito de perto ou longe acaba sendo criado pela subjetividade. “Uma das respostas encontradas para o que a criança achava longe foi a Inglaterra. Depois fui descobrir que a mãe da criança morava naquele país, estava longe dela, e por isso para ela a Inglaterra era longe, mesmo sem saber a distância”, conta Michele, que completa “Apesar de eu ter percebido que algumas crianças têm dificuldade em se localizar, minha pesquisa estava preocupada mais com a representação gráfica de espaços hierárquicos, que iam desde a sala de aula até o planeta”, explica.

A não identificação com o espaço e a dificuldade em se localizar e representar espaços são alguns dos problemas apontados pela autora. Para melhorar essa condição, ela aponta que é preciso mudar o modo como se pensa educação hoje. “É preciso valorizar disciplinas que não sejam Matemática e Português. Temos que dar mais importância para a Geografia e a questão do espaço. Além disso, precisamos ter menos alunos nas salas de aula e professores formados em Geografia nas escolas, com um ‘espaço’ menor entre o ensino fundamental e o universitário e, sobretudo, não queimar etapas, ensinando o que as crianças não estão prontas para aprender”, conclui Michele.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rádio para todos

Do que o rádio precisa para de fato comunicar-se com todos?

Entre as décadas de 1930 e 1950, o Brasil viveu o período chamado de “era de ouro do rádio”, quando os programas radiofônicos tiveram grandes audiências e eram a melhor opção de entretenimento da população. Com o advento da televisão, o rádio foi aos poucos perdendo a importância que tinha anteriormente, mas algumas características do meio permaneceram como vantagens para a divulgação de informações, o imediatismo (estar no local no momento em que o fato ocorre) e o fato de que qualquer um pode ouvir rádio enquanto faz outras coisas, como dirigir.

Mas será que esses fatores que beneficiam o radiojornalismo são usados pelas estações de rádio de Curitiba? A dissertação do professor da Universidade Positivo Luiz Witiuk, “Um olhar sobre o radiojornalismo de Curitiba”, tentou responder essa questão e ainda avaliar a qualidade da produção. A dissertação foi desenvolvida no curso de mestrado em Comunicação na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Witiuk fez uma pesquisa para saber quais rádios davam importância para o jornalismo na cidade e descobriu que apenas quatro das 29 estações da cidade trabalham continuamente com a divulgação de notícias. “Das 29 emissoras, 17 faziam alguma coisa de radiojornalismo, mas apenas quatro tinham uma boa estrutura, com departamentos jornalísticos e programas informativos. Isso na época em que a pesquisa foi feita, entre 2006 e 2007”, conta Witiuk.

Na pesquisa feita nestas quatro emissoras (BandNews, CBN, Paraná Educativa e Clube Paranaense) o autor identificou que existem bons profissionais e uma boa estrutura, mas que, apesar disso, uma melhor integração com o público ouvinte era necessária. “O radiojornalismo em Curitiba tem uma certa presença e uma estratégia de ação, mas o grau de participação do ouvinte na construção da notícia é muito pequeno. Essa participação é valorizada apenas na produção, mas na fase da execução da notícia o ouvinte fica de lado”, constata Witiuk. O pesquisador propõe uma maior participação do público para que o rádio seja mais democrático.

Outra questão abordada na pesquisa diz respeito à inovação que o rádio precisa ter, investimento em inserções sonoras que não sejam apenas a voz e a produção de documentários nas estações curitibanas. “O documentário é um formato jornalístico que aprofunda a compreensão de um fato e aqui praticamente não temos isso”, afirma o autor. Outro quesito apontado por Witiuk é a necessidade de a rádio se comunicar com as comunidades, de falar sobre o cotidiano da população, para se aproximar do público. “A rádio precisa estar presente nas diversas situações da vida da população. O estúdio poderia sair de dentro da emissora e ir para um terminal, para uma comunidade e falar da realidade dela”, analisa.

Para resumir, o que o autor coloca é que é preciso uma ampliação da cobertura para que a população seja de fato bem informada. “É necessário uma abertura maior dos empresários da comunicação para a importância da informação e principalmente informações sobre o meio em que o público está inserido. Para isso, é necessário ampliar o quadro dos jornalista que cobrem a cidade e ousar mais”, analisa Witiuk.

Cuidado!

Campeão mundial em acidentes de trabalho em 1970, Brasil tenta melhorar as estatísticas

O ano de 1970 foi de títulos para o Brasil. Conquistamos o tri-campeonato mundial de futebol no México, mas também conquistamos um título nem um pouco agradável: o de campeão mundial em acidentes de trabalho. Naquele ano, foram mais de um milhão e 800 mil acidentes e quatro mil mortes. Desde a década de 1970 o Brasil fez mudanças nas leis para que houvesse uma redução nesse número, mas ele ainda é grande. Segundo dados do Conselho Nacional da Previdência Social, são gastos R$ 32 bilhões por ano com auxílios, mas é estimado que seja mais de 70 bilhões de reais, visto que muitos empregados não notificam acidentes por não terem carteira assinada ou por medo de represálias.

Hoje, o Brasil tem três tipos diferentes de avaliação da prescrição (prazo legal para acionar uma ação). Letícia Pereira fez sua monografia de trabalho de conclusão de curso em Direito pela Pontifícia Universidade Católica justamente sobre estes tipos de prescrição: “Prescrição nas ações de indenização por acidente de trabalho”. Em sua monografia, ela faz um histórico dos acidentes de trabalho no Brasil e mostra as transformações legais acontecidas durante os anos. Mas o que é acidente de trabalho? Segundo Letícia, a melhor definição é que “o acidente de trabalho é caracterizado quando há ocorrência de um evento danoso subitâneo, imprevisto e imediato, ligado à relação de trabalho, que ocasione lesão corporal ou perturbação funcional ao trabalhador, causando-lhe uma incapacidade permanente ou temporária para o trabalho”, escreve a autora em sua monografia.

As transformações ocorridas através dos anos também confundiram um pouco o sistema, que hoje prevê três tipos de prescrição: uma de acordo com a constituição, sendo o julgamento de tais ações de responsabilidade da Justiça do Trabalho; a segunda diz que o acidente é uma responsabilidade civil, sendo que deve ser regulado pela lei civil, e o terceiro e último diz que os acidentes de trabalho são imprescritíveis, pois estão ligados aos direitos de personalidade. Os três tipos de prescrição são estudados por Letícia, que no fim concorda com aqueles que alegam que a competência para julgar essas ações é da Justiça do Trabalho.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

“Não era bem isso que eu queria”

Porque estudantes passam em um vestibular de universidade pública para desistir pouco tempo depois?


As universidades públicas têm passado por uma situação complicada nos últimos anos: a evasão. Por diversos motivos, estudantes começam a fazer um curso e depois de algum tempo ficam insatisfeitos com a escolha e acabam abandonando a universidade. “A sociedade como um todo paga para esses alunos estudarem na universidade pública”, diz a doutora Luciana Valore, que coordena a pesquisa “A dúvida quanto ao curso universitário: Uma análise institucional de discursos”, que visa compreender as causas que levam estudantes a abandonarem seus cursos.

O objetivo do estudo é fazer um perfil do estudante que decide desistir do curso que escolheu a partir de uma análise do discurso de universitários que querem sair de seus cursos. A pesquisa começou em de 2007 e irá até 2009. Foram feitas entrevistas com 25 alunos que estavam pensando em desistir ou trocar de curso. A pesquisa funcionou para esses alunos como uma reorientação profissional, para averiguar o motivo de sua falta de ânimo e possíveis saídas.

A partir de agora, Luciana irá fazer uma análise com base na psicologia para identificar se esta situação atrapalha a vida do estudante. “Iremos agora tentar identificar os efeitos que essa situação de dúvida traz para a auto–imagem e também como isso interfere em suas vidas sociais”, diz Luciana. Além disso, a autora avalia que é possível, a partir do estudo, tentar achar soluções. “O principal fator apontado pelos alunos é que o próprio curso cria essa evasão. Devemos pensar agora em como podemos melhorar o curso para evitar isso. A evasão é criada pelo curso e não apenas porque o aluno é imaturo. O curso não lhe dá uma motivação do ponto de vista de mostrar para ele como é de fato a profissão”, afirma Luciana. Para quem não desistiu da matéria, agora tem uma idéia do porquê da evasão.

Motivos apontados pelos entrevistados para a evasão

Formação universitária – o modo como o curso é constituído. Falta da relação entre teoria e prática.

Postura do professor – aulas muito expositivas, pouca dedicação dos professores e professores desmotivados.

Falta de ligação entre as disciplinas.

Grade horária – alguns cursos têm aulas em dois turnos, impossibilitando estágios.

Escolha feita em condições erradas – por pressão dos pais, pelo nome do curso ou por causa da pouca competitividade do vestibular do curso.

Reconhecimento social da profissão – alunos se deparam com uma outra realidade da profissão e questionam se ela terá futuro e valorização.

Desempenho acadêmico abaixo do nível esperado – em área de exatas, pessoas que iam bem no ensino médio acabam tirando notas baixas e perdem a motivação.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Eu chego lá

O problema não é chegar ao ensino superior, mas continuar até o fim do curso

O acesso à educação pública nem sempre é fácil. Para falar a verdade, para a maioria não é fácil, por isso muitos nem tentam fazer o vestibular. As condições econômicas muitas vezes são empecilhos para entrar e depois se manter na universidade. Essa foi uma das constatações da dissertação de Fernando Mesadri para o mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

A dissertação usou a história de vida de dois estudantes pertencentes a classes sociais mais baixas que estudam em faculdades particulares para ilustrar a situação de dificuldade de acesso e permanência na educação superior de estudantes provenientes de classes menos favorecidas economicamente. O que Mesadri percebeu com seu estudo é que mesmo quando essas pessoas conseguem chegar ao ensino superior, a manutenção se torna muito difícil.

Mesadri coloca em sua dissertação que “as desigualdades de acesso e principalmente a permanência na educação superior e a conseqüente aquisição do capital cultural se mostram evidentes quando a origem social do estudante carece de elementos e é menos favorecida. O direito ao ensino fundamental com qualidade implica também reduzir as acentuadas desigualdades no acesso aos níveis superiores. O privilégio conferido aos mais bem preparados, possuidores de meios favoráveis para cursar uma universidade pública ou privada e nela manter-se, conflita com a tímida atuação do governo na concessão de auxílio aos carentes sob a forma de bolsas de estudo. Há necessidade de muito mais! Livros, material escolar, refeição e condições de transporte são essenciais àqueles que tramitam no meio acadêmico e nele querem se desenvolver”, afirma o autor.

A conclusão a que o autor chegou foi que o ensino superior no Brasil nunca foi voltado para a formação da grande maioria da população e que os benefício sempre foram para as elites. O autor também fala sobre as políticas de inclusão adotadas nos últimos anos. Para ele ainda há muitos problemas. Sobre as cotas nas universidades públicas, Mesadri afirma que o grande problema é que não houve um aumento das vagas, mas uma divisão daquelas já existentes. Quanto ao Programa universidade para todos (ProUni), Mesadri se mostra um pouco desacreditado, pois as isenções para as instituições ainda são muito pequenas, não garantindo um ensino de qualidade. Por enquanto, ainda está difícil chegar ao ensino superior e mais difícil ainda permanecer.

sábado, 25 de julho de 2009

Entrevista: “Não se valoriza a divulgação científica”

por Rikardo Santana da Silva

Torcedor fanático do Comercial de Ribeirão Preto, interiorano com muito orgulho e palmeirense por opção, já que mora na cidade de São Paulo. É assim que Wilson da Costa Bueno se define em seu blog na internet (www.blogdowilson.com.br). Atual presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), Bueno, em entrevista concedida á UNIVERSO Humanas, conta como anda a divulgação científica no Brasil. As notícias não são tão agradáveis. Apesar do crescimento que tem se visto nos últimos anos, ainda temos um caminho longo a percorrer.

P: A população está interessada na divulgação científica?

R: Depende do nível de informação dessa “população”, mas em princípio temas científicos chamam a atenção, particularmente quando são espetaculares. O fundamental é mudar essa situação, com uma cobertura competente e regular da ciência e da tecnologia. Há excelentes pautas para serem divulgadas.

P: Como a mídia tem divulgado a ciência ultimamente?

R: Há dois cenários possíveis. A mídia especializada ou que dispõe de profissionais capacitados para essa divulgação tem realizado um trabalho competente, de qualidade, mas em geral há problemas com a divulgação na imprensa brasileira, ainda carente de profissionais e sobretudo pela visão equivocada de editores e empresários da comunicação com relação à importância da divulgação científica.

P: Como fazer para que esses empresários da comunicação deem mais atenção para a divulgação científica?

R: Não é uma tarefa fácil, e é fundamental que os jornalistas comprometidos com a divulgação científica façam um bom trabalho de convencimento interno nas redações.

P: O jornalismo científico tem avançado nos últimos anos?

R: Bastante, em particular na Web, onde novos espaços têm sido abertos para a divulgação da ciência e da tecnologia.

P: E a qualidade, também aumentou?

R: Sim, sobretudo pela melhor capacitação dos jornalistas, embora tenhamos ainda muitos desafios a vencer. Além disso, algumas universidades e institutos de pesquisa têm se dado conta da importância de democratizar o conhecimento científico e implantado estruturas profissionais de comunicação.

P: Se há um crescimento de cursos especializados e o interesse em ciência tem aumentado, o que falta para a divulgação científica ser ampliada e melhorada?

R: Falta envolver, no caso brasileiro, um número maior de veículos e sensibilizar editores e empresários. Mas ela tem sido ampliada e melhorada ao longo do tempo, em particular neste século.

P: Qual a qualidade dos cursos que estão surgindo?

R: Os propostos por universidades de prestígio (como, por exemplo, Unicamp) são de bom nível, e há boas propostas que deverão ser implementadas em breve.

P: Por que o interesse, principalmente dos universitários, no jornalismo científico tem aumentado?

R: Pela emergência de temas de relevância, como células-tronco, mudanças climáticas, nanotecnologia, transgênicos etc etc. Enfim, a ciência e a tecnologia ocupam hoje papel importante na vida dos cidadãos e impactam o seu mundo.


P: O que um estudante universitário pode fazer para contribuir para o desenvolvimento da divulgação científica?

R: Buscar informações qualificadas sobre os temas que estão na agenda da mídia e da sociedade, identificar fontes para essa cobertura, ler textos básicos sobre história, sociologia e filosofia da ciência e sobre o sistema de produção científica. Será fundamental acompanhar o dia-a-dia dos principais centros de excelência nessa área no Brasil. Isso é possível com uma boa navegada pelo site das nossas principais universidades e centros produtores de conhecimento. Ler as revistas de divulgação científica (Ciência Hoje, Revista Pesquisa FAPESP, Minas faz Ciência, Galileu, Super Interessante, Scientific American Brasil) é também uma maneira de acompanhar a área.

P: O jornalismo científico hoje no Brasil não fica muito restrito a pautas que estão ligadas a outros países?

R: Depende. Nos veículos que mantêm editorias e profissionais capacitados para esta cobertura, a ciência e a tecnologia brasileiras já ocupam um espaço e tempo importantes, mas, em geral, você tem razão: estamos ainda a reboque da notícia e do material importado.

P: Como a mídia poderia melhorar a cobertura da ciência produzida no Brasil?

R: Capacitando os profissionais para essa cobertura, abrindo tempo e espaço para a divulgação científica e, sobretudo, exercendo o papel que dela se espera do ponto de vista da formação dos cidadãos.

P: Os estudos acadêmicos tem alguma divulgação por parte da mídia?

R: Tudo depende da estrutura do instituto de pesquisa ou da universidade onde os estudos são realizados. As universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp) fazem uma boa divulgação de suas pesquisas (mas ainda aquém do ideal), alguns institutos e empresas de pesquisa são absolutamente competentes nessa divulgação (casos da Embrapa e da Fiocruz). Em geral, como as estruturas de divulgação são tímidas e falta consciência da importância da divulgação científica, não se pode generalizar mesmo. O panorama geral a esse respeito no Brasil não é favorável, muito longe disso.

P: As universidades brasileiras têm produção científica suficiente para a mídia cobrir?

R: Muito mais do que a mídia precisaria para dar um espaço digno para a ciência e a tecnologia nacionais. Elas não têm, em geral, embora estejam melhorando com respeito a este aspecto, estruturas ágeis e competentes para disseminar os resultados de pesquisa e os seus projetos, mas o problema não é mesmo produção.

P: Uma melhor estrutura de divulgação por parte das universidades poderia fazer com que a dependência de matérias "importadas" diminua?

R: Com certeza, essa é certamente a melhor alternativa para incrementar a divulgação da pesquisa brasileira. O problema não são as matérias importadas, mas a ausência maior de boas pautas nacionais, sobretudo as que se originam fora do eixo Rio/São Paulo e das universidades de maior prestígio (USP, Unicamp, Unesp, UFRJ etc).

P: Por que o jornalismo científico fica restrito aos fatos sensacionais?

R: Por um viés da mídia e falta de consciência dos editores e empresários da comunicação. O sensacionalismo infelizmente ainda predomina na cobertura.

P: Quais são os perigos éticos que um jornalista que trabalha com ciência terá de enfrentar?

R: Há interesses de toda ordem rondando a produção e a divulgação científica. Posso apontar interesses privados (indústria da saúde, da biotecnologia, agroquímica, de papel e celulose etc etc), interesses políticos, militares etc. Há fontes aparentemente independentes, mas que são bocas alugadas de grandes corporações. Logo, todo cuidado é pouco.

P: Como o jornalista que trabalha com ciência pode identificar os interesses de empresas e governos e fugir deles?

R: Confrontando as fontes, buscando identificar os compromissos dos pesquisadores que escrevem ou dão entrevistas para a mídia, tendo maior conhecimento do tema que vai ser coberto etc. Em princípio, toda informação deveria merecer este tipo de crivo. Há muitos interesses (comerciais, políticos, militares, econômicos etc) em jogo nesta área.

P: Você afrima em um de seus artigos que o jornalismo científico tem que investigar mais. Como o jornalista pode fazer essa investigação do assunto?

R: A principal investigação a ser feita é sobre os interesses de quem está gerando a informação científica. Como mencionado na resposta anterior, há interesses de toda ordem em jogo, e governos e empresas privadas são agressivos no sentido de vender pautas que os favorecem.

P: Como é a divulgação científica em outros países?

R: Em alguns países (Estados Unidos, Japão, França ,Espanha, Alemanha, Reino Unido, para só citar alguns exemplos), há uma consciência maior sobre a importância da divulgação científica, e institutos de pesquisa e universidades estão interessados em divulgar seus resultados e projetos porque sabem que, com isso, legitimam a sua atuação. Os bons jornalistas científicos brasileiros, no entanto, nada ficam devendo aos colegas de outros países.

P: Por que institutos de outros países têm mais interesse em divulgar suas pesquisas do que os brasileiros? Existe algum receio por parte das nossas instituições?

R: Não, não há receio em geral (embora isso possa acontecer pontualmente), mas há mesmo uma falta de cultura de comunicação. No Brasil, com raras exceções, não há interesse ou disposição para compartilhar as informações especializadas com o público leigo. Não se valoriza a divulgação científica; pelo contrário, posso afirmar que há até preconceito de determinados segmentos e do próprio Governo (apesar do discurso contrário) com respeito sobretudo ao jornalismo científico.

P: Por que ocorre esse preconceito do Governo quanto ao jornalismo científico?

R: O preconceito não é bem do Governo, mas de pesquisadores que trabalham para o Governo e que não conseguem se comprometer com a divulgação e com o jornalismo científico porque não julgam importante o diálogo com a sociedade.

P: A divulgação de estudos na área de humanas é menor do que de outras áreas?

R: Absolutamente menor e isso se deve tanto ao predomínio das chamadas “ciências duras” e ao preconceito em relação às ciências humanas. Nas relações de poder, as engenharias, as ciências físicas e biológicas prevalecem na direção dos institutos, nas prioridades de investimento em pesquisa etc. Há veículos que não dão às chamadas ciências humanas o estatuto mesmo de ciências.

P: E a produção de pesquisas na área também é menor?

R: A produção de pesquisa na área de Humanas pode não ser menor, mas tudo depende mesmo de quem avalia essa produção. Em princípio, há também preconceito com respeito às Humanas, sobretudo por colegas de outras áreas que costumam usar seus "instrumentos" para avaliar a relevância das pesquisas na área. Devemos também ter culpa no cartório.

P: O que a ABJC faz para melhorar essa divulgação da ciência?

R: Para ser sincero, temos feito muito menos do que deveríamos fazer, seja por falta de estrutura ,seja porque temos sido acomodados ao longo do tempo. Estamos despertando agora para esse papel, que temos cumprido apenas em parte. Realizamos eventos, ampliamos o debate sobre a capacitação na área, mas é preciso reconhecer, precisaríamos fazer muito mais. Jornalistas e professores costumam ser muito ocupados, e este é sempre o nosso caso, mas acho que não nos empenhamos o suficiente e não temos tido competência para mobilizar mais gente. Quem sabe, com gente jovem chegando,a gente consiga oxigenar a ABJC e dar um salto qualitativo nessa contribuição.

sábado, 18 de julho de 2009

Você acredita em zumbis?

por Rikardo Santana da Silva

A idéia dos mortos-vivos já foi abordada por diversos livros, filmes e jogos, além de habitar o imaginário popular. Mas será que de fato estes seres existem? Se você assistir ao documentário “Os mortos andam”, ele mostrará que sim, eles existem. Usando os mesmo elementos de um documentário “normal” é possível construir uma realidade. Você acredtita em tudo que vê?

Em junho de 2007, na cidade de Curitiba, sete jovens morreram de uma forma um tanto diferente e horrível. Eles foram devorados. Foram devorados por mortos-vivos. Você não acredita? Pensa que é bobagem? Pois saiba que casos como esses não são tão difíceis de ocorrer e que os zumbis estão mais vivos do que você possa imaginar.

Apesar de serem poucos, os ataques de zumbis costumam serem devastadores e raramente deixam sobreviventes. Neste episódio, acima citado, foi uma das exceções em que alguém se salvou para contar a história. Camila Dias perdeu sete amigos naquele fatídico dia e conta como ocorreu o acontecido: “É, os zumbis grunhiam e batiam nas portas, nas janelas e quando eu vi que eles iam entrar eu me escondi num banheiro, e foi por isso que eu sobrevivi, mas todos os meus amigos morreram, foram comidos e, mesmo assim, ainda tem gente que não acredita que os zumbis existam que não pensa em combatê-los”, relata.

Neste momento o leitor deve estar se perguntando se de fato comprou uma revista científica, se quem está escrevendo a matéria não ficou louco com tanto trabalho para fazer ou algo do tipo, mas lhe garanto no final desta matéria você irá compreender completamente sobre o que se trata esta reportagem, mas primeiro vamos descobrir como os zumbis surgem, como atacam e como podemos nos prevenir e nos defender.

Os zumbis.

Camila ficou tão traumatizada que resolveu fazer em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) em jornalismo pela Universidade Positivo (então Centro Universitário Positivo) o vídeo documentário sobre os zumbis “Os mortos andam”, onde ela mostra como os estes seres atacam suas vítimas e as precauções que devemos tomar . “A mídia não faz a cobertura que deveria fazer sobre isso. Pessoas estão morrendo e ninguém sabe”, desabafa Camila.

Para fundamentar sua pesquisa, a autora usou um livro muito conhecido daqueles que acreditam na existência dos zumbis e que mostra como combatê-los. O nome do livro é “The Zombie Survival Guide” (O guia de sobrevivência contra zumbis) de Max Brooks. No livro, Brooks mostra meios de proteção e defesa em caso de ataques.

O cinema tem uma extensa lista de filmes que falam sobre zumbis. Jogos de vídeo games também freqüentemente utilizam estes seres como personagens. Mas isto é apenas ficção. Os verdadeiros zumbis não são como os retratados nestas obras ficcionais. Segundo Brooks, os mortos-vivos não têm uma capacidade física elevada e muito menos são inteligentes. Por serem corpos em decomposição, são frágeis e pouco perigo representam quando estão sozinhos, o perigo é quando andam em grupo que é quando acontece as tragédias.

Mas o que faz um zumbi virar zumbi? Camila explica, através do livro de Brooks, que um vírus chamado Solanum infecta o ser humano a partir da mordida de um zumbi ou se algum fluído do infectado cair em uma ferida do indivíduo saudável. O vírus foi descoberto em 1955, pelo doutor Jan Vanderhaven, considerado o primeiro zumbologista (especialista em zumbis) do mundo. A partir da infecção começa uma reação que em cerca de 23 horas irá transformar o ser humano em um morto-vivo, como pode ser visto no quadro acima. A grande diferença dos corpos dos zumbis para os nossos, além do fato de estar em decomposição, é sua independência de oxigênio e sua vontade incontrolável de comer carne humana. Mas como podemos nos proteger destes seres?

Camila sobreviveu porque se escondeu no banheiro e assim os zumbis não a encontraram, mas na verdade, todos os seus amigos poderiam não ter morrido se tivessem prestado atenção nos sinais de que existem zumbis por perto, como epidemias estranhas ou mortes inexplicáveis. Mas eles também poderiam prevenir-se seguindo algumas dicas que a organização não-governamental Aliança Internacional Anti-Zumbis (IAZA, na sigla em inglês) recomenda, como trancar todas as portas e janelas, achar armas leves e guardar mantimentos.

Você ainda não está acreditando na história contada nessa matéria? Acha que a existência de mortos-vivos é uma bobagem? Acha que tudo isso foi uma invenção só para iludir sua mente? Então continue lendo a matéria e você terá algumas surpresas.

Construção da realidade

De fato zumbis não existem (será?), mas um TCC falando sobre zumbis não foi nenhuma invenção. Camila Dias de fato fez um vídeo documentário falando sobre o perigo dos zumbis, contando a história daqueles sete jovens que morreram e se colocando como personagem da história. A única invenção aqui foi a frase de Camila justificando seu trabalho, dizendo que a mídia não mostrava o perigo dos mortos-vivos, seu real objetivo era outro. “Espero que meu documentário sirva como um alerta. Se a informação é o mais importante, não entupa seu produto de apelos emocionais, música triste e personagens criados”, agora sim relata a autora. Mas o que isso quer dizer?

O que a autora quis mostrar com esse documentário é que a realidade pode ser criada. De fato foi mostrado o ataque dos zumbis, uma organização não-governamental que lutava para defender as pessoas destes seres foi ouvida e outros “especialistas” que embasavam a idéia de que os mortos estavam de volta á vida, tudo como acontece em um documentário ou em uma matéria jornalística, mas era tudo falso.

O livro de Brooks de fato existe mas é claro que é uma obra ficcional. Camila queria fazer algo diferente em seu TCC e como já conhecia o livro usou-o para criar esta história. “Eu não gostava dos produtos convencionais, aquelas coisas que sempre aparecem nas conclusões de curso de jornalismo e resolvi fazer um documentário sobre zumbis. Eu gosto de zumbis, filmes e livros , foi do livro de Max Brooks que eu tirei a idéia do projeto. Foi divertido fazer isso. Eu passei o ano achando que minhas chances de reprovar eram grandes. Eu prefiro a fundamentação teórica, mas não sei se o resultado seria o mesmo sem o documentário. A parte escrita e o produto são bem complementares. Mas na verdade o melhor resultado foi ver a cara de algumas pessoas assistindo aquilo e aceitando”, comenta Camila.

Para fundamentar seu trabalho, a autora recorreu a um estilo diferente de documentário: o mock-documentary, um estilo de documentário que constrói uma realidade com os elementos do documentário. Para Camila esta foi a maior dificuldade do seu TCC. “Provar que meu falso documentário é um produto jornalístico foi a maior dificuldade que eu tive. Afinal, ele mostra que as convenções usadas em muitos documentários considerados sérios podem ser subvertidas. Outra dificuldade foi achar material sobre falsos documentários”, conta.

Existem três estilos de mock-documentary, e todos estão presentes no trabalho (veja no box na página z). Este estilo de documentário foi utilizado pois mostra a fragilidade da estrutura da construção da realidade proposta pelo jornalismo. Se é possível usar esta estrutura para fazer uma história absurda como a dos zumbis, não é também possível que uma matéria jornalística, que utiliza da mesma estrutura, seja falsa? É este o grande questionamento do estudo.

E agora?

Este texto começou com uma história de mentira e depois passou a contar a verdade. Será? Como podemos confiar que tudo que vemos de fato aconteceu, que aquilo não é apenas uma história criada para nos iludir? Segundo a autora não devemos ficar pensando muito nisso, devemos apenas saber que há de fato uma manipulação naquelas informações. “Eu acredito que todo produto reflete, de alguma forma, a opinião e as escolhas de seu autor/diretor. Eu sugiro que nem tente tentar identificar esta construção, só acredite no que você viu, sabe, tem como provar. O resto é resto ou diversão”, comenta.

Ainda segundo a autora, é muito difícil existir um documentário que não possa ter sua credibilidade subvertida. “Depende de quem analisar ou interpretar o produto. A maioria dos públicos não percebe o que pode ou não ser manipulado ao ver um documentário convencional, no entanto, quando um documentário é claramente falso, as pessoas têm mais facilidade de assimilar como aquelas informações foram manipuladas. O falso documentário dificilmente engana alguém por muito tempo, dá pra dizer que é o formato mais verdadeiro”, afirma Camila. Ou seja, se o documentário for de fato verdadeiro, resistirá a questionamentos ou a prova do tempo.

Camila ainda conta que o próprio jornalismo se utiliza disto. “Alguns artifícios usados já são praticamente clichês. Figuras sérias e respeitáveis transmitem notícias, a voz das narrações fala com convicção, música, iluminação e edição de imagens criam o clima desejado. Até animações e reconstruções de fatos são associadas a acontecimentos e processos com a mesma seriedade que teriam as imagens feitas no momento em que tais fatos e processos acontecem”, finaliza a autora.

Se você ainda acha que esta história de construção da realidade é uma bobagem e que nunca seríamos enganados por algo tão falso como ataque de zumbis, saiba que algo semelhante já aconteceu. Em 1938 o norte-americano Orson Welles fazia um programa de rádio em que fez uma adaptação do livro “A Guerra dos Mundos” de H.G Wells. As pessoas que ouviam o rádio achavam que o relato era verdadeiro, e que de fato alienígenas estavam invadindo a Terra, criando pânico e histeria. O que o estudo mostra é que devemos sempre desconfiar do que nos é passado e não pensar que aquilo é a verdade absoluta, assim com dizer que de fato os zumbis não existem.

O mock-documentary está dividido em três estilos que são:

1 – Paródia
É uma documentário paródia que usa os mesmos elementos de um documentário comum mas de uma forma cômica.

2 – Crítica
Apesar de também ser ficção, este estilo se preocupa mais em fazer com que o espectador reflita sobre como os assuntos são abordados pela mídia

3 – Desconstrução
Estes documentário são mais focados em uma crítica ao próprio modelo como são feitos os documentários.

Fonte: Jane Roscoe e Craig Haight, Faking it: Mock-documentary and the
subversion of factuality.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Direita volver

por Rikardo Santana da Silva

O Brasil também teve uma direita fascista

Em 1930, o Brasil viveu uma revolução que pôs fim à chamada República Velha. Essa revolução colocou como chefe do governo provisório Getúlio Vargas. Após algumas mudanças, Vargas se tornou Presidente e ficou no poder até 1945. Esse período foi bastante conturbado, com crises econômicas e a 2ª Guerra mundial. Um pensamento político que se destacou na época foi o fascismo, que no Brasil teve uma vertente chamada de integralismo. Os integralistas eram contra os comunistas e os liberais e chegaram a ajudar Vargas em sua manutenção no poder.

Apesar de fazerem parte da história brasileira, essa direita fascista ainda era pouco explorada, pelo menos de acordo com Edgar Serratto, autor da dissertação em história pela Universidade Federal do Paraná “A ação integralista brasileira e Getúlio Vargas: Antiliberalismo e anticomunismo no Brasil de 1930 a 1945”. Serratto acredita que o período era mais definido. “A impressão que temos é que naquela época o mundo era mais idealizado. Era tudo bem claro, existia direita, existia esquerda coisa que hoje em dia a gente não vê mais”, lamenta Serratto.

Naqueles anos, Getúlio Vargas chegou a receber o apoio dos integralistas, com ajuda na elaboração do Plano Cohen, um documento que forjava uma tentativa de tomada de poder pelos comunistas, que levou à instalação do Estado Novo. Mas Vargas não apoiava esse movimento de direita, tanto que o colocou na ilegalidade. “Vargas queria, sobretudo, se manter no poder. Ele fazia discursos contra os liberais no início do seu governo, depois fez contra os comunistas e no final, quando o Brasil entrou na guerra, discursava contra os fascistas”, conta Serratto.

Essa análise mostra como os discursos do antiliberalismo e do anticomunismo tinham algo em comum, pois para os integralistas os comunistas eram semelhantes aos liberais, pois ambos tinham uma ideologia materialista. Esses discursos podem ser observados nas bibliografias dos principais integralistas brasileiros (Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Reale) que foram estudados pelo autor.

A ascensão da direita fascista no Brasil (os integralistas chegaram a ter um milhão de filiados) ainda é pouco tratado hoje em dia, de acordo com o autor. “É uma coisa que faz parte da nossa história. Vargas flertava muito bem com essa direita, no entanto, a visão que se tem de Vargas é boa, e a daquela direita não, por isso é preciso ter um olhar mais cuidadoso sobre os assuntos. A política nem sempre é uma coisa superficial. Você não pode simplesmente jogar um discurso numa posição ideológica ‘x’, pois temos que parar para pensar em todo esse flerte que tem por trás e aprofundar todas essas questões”, diz Serratto.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A negação do problema

Desde a implementação das cotas raciais nas universidades federais, várias dúvidas surgiram sobre a necessidade das mesmas e muitos
argumentos foram colocados, muitos deles sem nenhum fundamento ou relevância. Para ajudar nesta questão, um projeto está sendo feito na UFPR com o intuito de mostrar a realidade da situação dos cotistas e para mostrar que o preconceito existe na vida destas pessoas.


por Rikardo Santana da Silva

No ano de 2005, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) instituiu o sistema de cotas raciais na instituição. O fato foi considerado por muitos como discriminatório como algo que fere o princípio da meritocracia ou que era um racismo que poderia instituir um apartheid no Brasil. Do outro lado, os defensores mostraram que a representatividade do negro na UFPR era mínima, muito abaixo do percentual da população e que a formação superior beneficiava apenas uma parcela da sociedade.

No meio de toda essa discussão se esqueceram do fator principal: o ser humano. Ninguém se perguntou como os cotistas se sentiam a respeito da situação que estavam vivendo e muito menos sua condição como negro no Brasil ou em Curitiba. O mito da “democracia racial” impera nas discussões como se nosso país fosse livre desse mal.

Por considerar estes argumentos muito superficiais e pouco conclusivos para um tema tão complexo e para mostrar um pouco o que é ser negro na cidade, o professor doutor Marcos Silva da Silveira está desenvolvendo um trabalho de extensão na UFPR em que, com a colaboração de 5 alunos, irá desenvolver, no curso de “Educação Étnico-Racial para Cotistas Raciais e Licenciados”, a cartilha “Memórias dos cotistas raciais da UFPR” destinada a alunos e professores do ensino médio, em que irá mostrar as experiências vividas pelos alunos.

Para produzir esta cartilha, os alunos se reúnem com o professor em reuniões na universidade, para aprenderem um pouco sobre as relações étnico-raciais da sociedade brasileira, e para que eles mostrem como ocorrem estas relações no cotidiano deles. Por perceber que os cotistas raciais da UFPR têm uma série de dúvidas a respeito da implementação das cotas, do racismo e do que a sociedade espera deles, este curso de extensão foi proposto para eles.

O projeto é desenvolvido pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB) da UFPR e tem como objetivo mostrar de que maneira a política de cotas é vivenciada pelos próprios estudantes cotistas. Participam da oficina não só estudantes cotistas, mas também não-cotistas que estejam interessados, tentando mostrar o que mudou na vida destes estudantes, na sociedade e na universidade desde a implementação das cotas raciais, será a memória dos negros que se tornaram cotistas e suas percepções quanto a isso.

Silveira coloca que iniciou esta pesquisa a partir de uma pesquisa desenvolvida no curso de antropologia em 2005, sobre racismo. A partir dessa pesquisa houve um levantamento sobre o que as pessoas pensavam sobre as cotas raciais. Os resultados obtidos foram que a maioria das pessoas se posicionava a favor da idéia de cotas sociais, de alunos oriundos de escolas públicas, mas contrárias a idéia de cotas raciais.

Os argumentos usados pelas pessoas contrárias eram baseados em estereótipos criados pela mídia e sustentados por muitos discursos equivocados vindos das academias. A discussão não era aprofundada, além de que o perfil dos entrevistados, que era geralmente de classe médio alta pouco contato tinha com pessoas negras. Silveira então decidiu registrar as memórias destes cotistas “Eu achei que seria interessante porque nós sabemos muito pouco sobre os cotistas raciais”, constata.

A realidade dos cotistas

A partir da execução do projeto e da descrição das experiências dos cotistas, foi visto que a discussão sobre o tema, quando acontecia, ocorria de uma maneira superficial e com argumentos vindos do senso comum que desconsideravam a realidade dos fatos. O que foi constatado a partir disso foi que mesmo quando existia uma discussão mais profunda sobre o tema, ela não era verdadeira, pois as pessoas não falavam a verdade, o que podia ser provado com os relatos dos cotistas que contaram suas impressões das conversas fora de sala.

Jules Ventura é aluno do quarto ano do curso de Ciências Sociais e fez parte do primeiro grupo de cotistas raciais a entrar na UFPR. O estudante conta que quis participar do projeto por acreditar que a discussão não estava sendo levada á sério.“Tento trazer minha história de vida, da escolha de ser cotista. As pessoas geralmente fogem do problema ou tratam isso como se fosse simples, e não é, pois trata-se da vida de pessoas. Minha vida está sendo debatida”, desabafa.

Esta banalização no tratamento do tema levou ao desenvolvimento desta pesquisa, para mostrar não apenas os dados da desigualdade e do racismo, mas histórias sobre isso, contadas por aqueles que a sofreram ou que presenciaram, como o aluno do terceiro ano do curso de Ciências Sociais, André Marega. Ele percebeu que se falava algo e era feito outro. “Não batia o que se falava com o que se fazia. Eu nunca senti na pele, mas vi pessoas reproduzir esse racismo e de alguma maneira achei que esta divulgação das memórias daria um bom material de reflexão”, revela.

Se quando há a discussão já é um problema, pois, de acordo com a pesquisa e seus envolvidos, argumentos pouco aprofundados e visões que não correspondem necessariamente a realidade imperam, imagine então quando não há discussão nenhuma. Edvando Eduardo Gomes é aluno do quarto ano do curso de Engenharia Civil (um dos dois únicos negros numa turma de 150 estudantes) e diz que a palavra cotas ou racismo é um tabu em sua sala. “O meu curso é extremamente elitista e eu percebia um tratamento diferente vindo de outros colegas e até de professores, por eu ser cotista racial. Não se pode discutir o assunto na sala. Mesmo quando tento, o assunto é rapidamente abafado, criando uma tensão entre a turma. É necessário discutir para o clima ficar menos denso. Eu quero poder de alguma maneira levantar a discussão e fazer esse tema ser debate”, conclui.

A participação no curso também foi feita a partir da própria curiosidade do estudante, pelo menos foi o caso de Áurea Teixeira que diz que se interessou pelo projeto porque queria conhecer um pouco sua composição étnica. “Eu não conseguia entender minha composição étnico-racial e com todas as manifestações que ocorreram com a instauração das cotas eu procurei entender melhor a situação, entender o outro, porque eu não me sentia negra, é muito importante pra mim a participação nesse projeto. Comecei a entender mais profundamente esta situação, entender a experiência do outro”, define.

A quinta participante, Julia Conceição, já era, antes de entrar na UFPR, participante ativa de debates sobre questões raciais. “O projeto vem só somar com aquilo que acredito. É uma oportunidade de eu como negra poder participar, colocar minha subjetividade dentro desse espaço. A temática que estou discutindo é que nós não estamos falando de segmentos fechados e sim de seres humanos. As sensações que tive na vida me fizeram entrar nestes debates que tem discussão racial”, conta.

Julia ainda conta que as dificuldades do negro no Brasil não são apenas do acesso ao ensino superior, mas também de se ver como um cidadão e encontrar seu espaço na história. “As representações tem muito peso. Como a representação no nosso país fica nesse mito da democracia racial isso faz com que as pessoas pensem que de fato isso existe na prática. Os negros têm muita dificuldade de encontra suas raízes, pois elas foram muito pulverizadas. Todos sabem se são descendentes de alemão, japonês e italiano, mas aqui no país a ancestralidade negra fica colada na figura do escravo”, analisa Julia.

Como este projeto ainda esta em andamento, ainda tem tempo para saber se ele de fato irá gerar os resultados que seus participantes esperam. Mas o que de fato eles esperam? O que eles querem, e o que também Silveira quer, é que o debate seja de faro levado a sério e que passemos a nos interessar em entender o outro lado, mas isso é assunto para o próximo tópico.

Expectativas

Ao fim desse semestre será desenvolvida a primeira cartilha com as memórias dos cotistas, com a proposta de ser lançado um álbum com estas memórias com o título de “Memórias Étnico-Raciais dos Estudantes da UFPR”. Ao final disso, tanto Silveira quanto seu grupo de estudantes, esperam melhorar a condição do debate, fazê-lo ser mais fundamentado.

“O objetivo da pesquisa não é, de maneira nenhuma, obrigar as pessoas a aceitarem seus argumentos, mas sim mostrar que a discussão que atualmente acontece não é conduzida de maneira séria, pois não é levado em conta que se está falando da vida de pessoas e não de algo abstrato. Além de que o aprofundamento, a divulgação e a importância devida, não são dados ao tema” constata o pesquisador.

Silveira acredita que estas histórias podem mostrar às pessoas um lado mais humano e mais sólido das desigualdades. “As pessoas vão ouvir histórias das quais elas não têm acesso. O nosso papel é entender o problema. Mostrar essas histórias irá expor o que acontece na sociedade. As pessoas terão acesso a outro discurso, a novos elementos”, define.

Jules Ventura espera que a forma banal que o tema é tratado seja modificada. “Todo mundo tem alguma coisa á dizer, mas elas são viciadas. É preciso que haja uma melhor reflexão”. André também espera melhorar o debate. “O que a gente tem percebido com nossa pesquisa é a idéia de que esses argumentos devem ser aprofundados e não ser pensados no mesmo círculo de argumentos”. Edvando quer debater em sua sala. “Espero que a partir disso eu possa colocar debater no meu curso, pois apesar de não ter a ver com tecnologia tem a ver com pessoas, e são as pessoas que fazem a tecnologia”. Áurea acredita que a partir disto, a sociedade possa entender melhor a questão. “É preciso entender o outro saber de suas dificuldades, ou seja, conhecer nossa realidade”. Já Júlia quer que a questão seja superada porque hoje “a gente tem que provar primeiro que temos condição de sermos acadêmicos para depois termos condição de sermos o que quisermos”, finaliza.

O que o projeto pretende é redefinir os padrões de como a questão é tratada, pois, por muitas vezes as questões postas como argumentos para a contrariedade das cotas, levam a um pensamento de que a igualdade impera no Brasil, fato que é facilmente derrubado com uma simples ida a uma favela de uma grande cidade ou a uma universidade, como Jules coloca “muitas pessoas perguntam se a pobreza tem cor, quando a pergunta certa a fazer é se a riqueza tem”.

“Eu não consigo ficar satisfeito”

No final de tudo, é apenas mais um tijolo no muro

por Rikardo Santana da Silva

Na loja on-line da Apple está sendo vendido o programa “I am rich” (Eu sou rico), para o iPhone. O programa não tem nenhuma utilidade, apenas coloca um rubi no visor do celular e custa cerca de mil dólares. Em 1979 a banda britânica Pink Floyd lançou o álbum “The Wall”, que teve como música mais conhecida “Another Brick in The Wall pt.2”. A idéia do álbum veio do contra-baixista Roger Waters, ao perceber que as pessoas vinham aos seus shows não para ouvirem a música mas sim para beber e brigar, criando assim um muro entre eles. O álbum acabou virando um filme, “The Wall”, com direção de Alan Park. Mas o que Pink Floyd tem a ver com o iPhone?

Na verdade, não é sobre a relação de Pink Floyd e iPhone que esta matéria irá tratar, mas sim da relação entre consumo e construção de muro. Esse foi o tema de um trabalho de conclusão de curso de publicidade e propaganda da Universidade Positivo. Por ter uma interpretação diferente do filme foi que o estudante Diego Zerwes teve a idéia de fazer, junto com seus colegas de curso Camila Lopes, Renãn Araujo, Rodrigo Costa e Tatiane Kamikawa, uma análise do filme com base na psicologia: a monografia “A construção do muro da publicidade no filme The Wall, do Pink Floyd”.

Apesar de o filme não mostrar claramente marcas ou o personagem principal (Pink) consumindo, a questão do consumo é tratada no filme de maneira subjetiva. “Para fugir do muro criado pela mãe dele, Pink acaba criando um segundo muro, que o liberta, inconscientemente. Esse muro é o muro do consumo” conta Zerwea, um dos autores da monografia.

A partir da análise do filme, o trabalho discorre sobre o consumo, o por que consumimos e como a publicidade age nesse consumo. De acordo com os autores pesquisados no trabalho, o consumo é algo inerente ao ser humano, pois competimos uns com os outros e também queremos satisfação pessoal. “No filme Pink não aparece consumindo, mas em trechos da música fica evidente isso, como quando ele pergunta 'devo comprar uma guitarra nova?' Quer dizer que ele tinha uma guitarra”, constata Zerwes.

Segundo o estudo, a publicidade não tem papel tão forte na construção do consumo como é posto por muitos, pois ela apenas potencializa algo que já é natural no ser humano. “A publicidade é responsável por divulgar marcas e produtos. Dentro do modo de produção de massa, existem produtos, e as empresas querem vender e vender mais do que as outras. A publicidade apenas mostra esses produtos”, analisa Zerwes. Além disso o próprio consumo gera mais consumo, e como na música dos Rolling Stones, que também é título desta matéria e é usada no trabalho, as pessoas não conseguem ficar satisfeitas.

Na análise, o consumo também é tratado como um modo de identificação, como um diferenciador de grupo, como o pessoal que compra o “I am rich”. Além desta contribuição, de uma análise de caso sobre o consumo, o trabalho também mostra que é possível fazer não apenas análises de livros, mas sim de todo o tipo de manifestação cultural. “Como muita gente analisa diversas obras literárias, acho que é interessante também falar sobre outras formas de arte”, finaliza Diego. Então se você deseja falar sobre outras formas de arte ou cultura não tenha medo, pois, como Hobbes dizia, “o homem que vive deseja”.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A doença da ignorância

por Rikardo Santana da Silva

Após mais de 20 anos da descoberta do vírus da Aids muitas pessoas ainda não se sentem potenciais vítimas da doença. Apesar de toda a informação disponível, adolescentes pensam que a doença não irá atingi-los e acabam correndo riscos desnecessários. Isto foi objeto de estudo da psicóloga Ana Carolina Ribeiro em sua monografia. No decorrer desta matéria você começará a entender por que isso acontece.

“Olha, por mais que digam que não tem nada a ver, que você só pega transando ou pelo sangue... eu tenho um certo receio de aidético. Sei lá, me vem à cabeça aquela idéia de contaminação mesmo, de que a pessoa tem uma coisa de sujeira, sabe?” (E7, 23 anos, masculino, heterossexual).

Esta afirmação foi feita no ano de 2006, em uma série de entrevistas feitas pela psicóloga Ana Carolina Ribeiro, em seu trabalho de conclusão de curso em psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a monografia “Percepção de risco de infecção por HIV/Aids entre jovens”. Assim como o entrevistado, cuja identidade não foi revelada, muitas pessoas ainda têm um pensamento equivocado e preconceituoso quanto à Aids ou aos portadores do vírus HIV.

No Brasil, segundo dados do Programa das Nações Unidas para a Aids (Unaids, na sigla em inglês), existem cerca de 620 mil pessoas vivendo com o vírus HIV . Ainda segundo a Unaids, cerca de 33,2 milhões de pessoas vivem com o vírus no mundo, sendo que 2,5 milhões têm menos de 15 anos, e 2,1 milhões de pessoas morreram de Aids no último ano.

Nesta monografia, Ana Carolina tentou mostrar qual era a percepção dos jovens quanto à prevenção e a contaminação pelo vírus HIV. “A pesquisa revelou que as pessoas têm acesso à informação, mas não se protegem, pois não se consideram em um grupo de risco”. Para confirmar sua hipótese, Ana Carolina entrevistou 12 jovens de 18 a 25 anos, 6 homens e 6 mulheres.

Ana Carolina mostrou, através de seu estudo, que apesar de as pessoas terem conhecimento de como a doença pode ser contraída, elas o ignoram e correm o risco. “A pesquisa foi bem ao encontro com aquilo que a literatura falava. A percepção de risco não está associada ao conhecimento sobre a doença. Muitas vezes se imagina que as pessoas não tem acesso à informação e por isso não se protegem. A pesquisa mostrou que, na verdade, as pessoas se sentem invulneráveis, principalmente em relação ao sentimento amoroso”, constata a autora.

Mas como em pleno século XXI, na era da informação, pessoas ainda tenham pensamentos tão errados em relação a um assunto tão amplamente divulgado? Ou pior ainda, por que pessoas que têm acesso a essa informação e sabem dos riscos que podem correr, ignoram totalmente esse conhecimento e se arriscam mesmo assim? Foi a essas perguntas que este trabalho tentou responder e que você irá entender agora.

Formação da identidade

O período da adolescência é uma época de transição da infância para a vida adulta. Mas o que isso significa? Segundo a pesquisa de Ana Carolina, o adolescente tenta se encontrar no mundo, pois como ele não é mais criança, não pode mais agir como tal, e a sociedade começa a lhe cobrar mais responsabilidades. Mas como ainda não são adultos, essa mesma sociedade trata-os como sendo ainda irresponsável.

Para conseguirem ser aceitos em um grupo, os adolescentes começam a fazer escolhas que os façam serem mais próximos de determinado grupo, e a sexualidade é uma dela. O sexo começa a tomar um papel fundamental na vida destes jovens. Com isso, o sexo começa a se tornar não apenas parte da reprodução ou da busca pelo prazer, mas também se torna um dos elementos da busca pela identidade que o jovem irá formar e, a partir daí, mesmo sabendo que haverá riscos, ele os ignora, pois acha que com ele não irá ocorrer. “A aceitação no grupo torna difícil a prevenção para estes jovens de 15 á 24 anos, pois nesta época eles têm a sensação de invulnerabilidade, de que nada irá acontecer com ele”, conta Ana Carolina.

O mesmo comportamento ocorre com relação à gravidez ou a dirigir bêbado. O jovem sente que nada irá lhe ocorrer e por isso não precisa se prevenir. Além disso, existe a questão da fidelidade. Quando o jovem conhece seu parceiro, ele pensa que não há problema em fazer sexo sem proteção, pois tem a certeza que a pessoa não tem aquela doença.

Com isso, Ana Carolina mostra que é necessário conhecer o pensamento destes jovens quanto à prevenção para que as campanhas de prevenção realmente os atinjam. No livro “AIDS in the World II”, Jonathan Mann e Daniel Tarantola explicam muito bem isso, dizendo que é necessário o conhecimento do público para o qual a idéia será veiculada. “Se os preservativos precisam ser promovidos com sucesso como uma estratégia global para diminuir o risco de infecção por HIV, as maiores barreiras à sua utilização precisam ser compreendidas.”

Além disso, é preciso compreender o pensamento deste jovens quando a questão é a sexualidade. Conforme Ana Carolina aponta o sexo passa a ter um novo significado, em que os riscos são encarados de maneira diferente. “Tudo que está inserido na esfera da sexualidade está inserido na esfera do desejo, e aí fica muito difícil situar certas coisas, como o risco, pois está além. O prazer também envolve certo risco” afirma.

Segundo o estudo de Ana Carolina, a principal barreira para que o jovem não use o preservativo é a preocupação com a diminuição do prazer e novamente a confiança em seu parceiro. Esta confiança se dá porque o parceiro sexual do jovem é seu conhecido, é alguém que freqüenta os mesmos lugares, que pertence ao mesmo grupo. Ou seja, a AIDS é uma doença do outro, que não existe em seu círculo social. Este pensamento é outro fator que influi na percepção dos jovens quanto à prevenção e contaminação por HIV.

A doença do outro

No início da epidemia de Aids, a doença foi tratada como uma doença dos homossexuais. Alguns anos depois, pessoas que dependiam de transfusões de sangue ou pessoas que usavam drogas injetáveis começaram a entrar no chamado “grupo de risco”. Ou seja, desde o início a Aids é tratada como uma doença de um determinado grupo social, que já era alvo do preconceito.

Com o passar dos anos, a epidemia do HIV começou a atingir pessoas que não estavam no grupo de risco, e aí a culpa passou a ser dos portadores do vírus, que eram irresponsáveis e por isso contraíram a doença, caracterizando ainda mais a idéia da doença do outro. Esse pensamento de que “comigo nunca irá acontecer” faz com que jovens se exponham aos riscos, pois tem certeza de que nada irá acontecer com ele.

As primeiras pessoas a serem enquadradas no “grupo de risco” foram os homossexuais. Por serem os primeiros, hoje o número de pessoas pertencentes a esse grupo que usam preservativos é maior que o de heterossexuais. Por atuar em uma organização não-governamental que trabalha com os direitos dos gays, lésbicas, bi-sexuais e transexuais, Ana Carolina percebeu que a percepção deste grupo social em relação ao HIV era diferente.

A criação deste “grupo de risco” fez com que as pessoas se despreocupassem com a doença, pois ela só acontecia com quem fazia parte daquele grupo. Este pensamento fez com que não houvesse o preocupação em se prevenir por parte de pessoas fora deste grupo, fazendo aumentar os casos de infecção.

Mesmo após vinte anos de estudos e divulgação sobre a doença, as pessoas ainda têm estereótipos criados sobre a doença, como o entrevistado do início da matéria, que pensa que o portador do vírus é sujo. Mas as entrevistas mostraram que nem todos são assim, como você pode perceber nas frases destacadas nesta reportagem.

Outra questão a ser levantada a respeito da doença do outro é sobre a fidelidade. Quando o jovem conhece a pessoa, ele simplesmente não acha necessário o uso de preservativo, pois confia nela. Quanto a isso também existe uma diferença quanto a gênero. Segundo a monografia de Ana Carolina, enquanto o homem, em sua construção social de identidade é visto, sexualmente falando, como independente, viril, conquistador, forte e seguro, a mulher é tida como carinhosa, sensual e sedutora, mas tomando cuidado para que esse comportamento não seja muito explícito e a faça parecer vulgar.

Neste ponto aparece mais uma resposta às perguntas propostas: a vulnerabilidade feminina. Por não poder expor sua sexualidade, pois será taxada de vulgar, a mulher acaba sendo subjugada pelo homem. A construção do que é ser homem é associada a idéia de gostar do sexo, enquanto á mulher cabe o papel de ser mãe e esposa fiel. Mas como isso influi na percepção de risco?

Vulnerabilidade feminina

A camisinha, método mais eficaz de prevenção da Aids, é de uso masculino. Este fato faz com que a mulher seja “refém” da vontade do homem em usar este método de prevenção sendo necessária uma negociação para que o homem use. E quando é proposto o uso para o homem, ele se sente ofendido pela mulher não confiar nele, ou acha que a parceira é promiscua.

Como já foi dito antes, os grupos de riscos para se contrair o HIV eram bem claros: Homens gays ou mulheres prostitutas. Esta certeza, fez com que as mulheres não se enxergassem como potencial vítima da doença, a não ser que fosse garota de programa ou que seu marido a traísse e não usasse camisinha. “A mulher por ‘n’ fatores está mais vulnerável ao vírus principalmente por não se sentir nesse grupo de risco” conta Ana Carolina.

Mas, o vírus chegou às mulheres e a partir daí o número de infectadas só aumentou. Para se ter uma idéia, de acordo com os dados da Monitoraids, ligado ao Programa Nacional de DST e Aids do Governo Federal, de 1980 a 1995, foram notificados mais de 21 mil casos de HIV em mulheres, ou seja, cerca de 1401 por ano. Só em 2005, foram mais de 14 mil notificações, quase 11 vezes mais. Apesar de o número de homens com o vírus ter aumentado de 1996 até 2005, se formos comparar com o mesmo período, veremos que o aumento feminino foi maior. Ainda segundo o Monitoraids, de 1980 á 1995, mais de 85 mil homens foram diagnosticados como portadores do vírus, cerca de 5673 por ano, enquanto que em 2005 foram mais de 20 mil, “apenas” cerca de 4 vezes mais. Apesar disso, o número de casos nos últimos anos vem caindo, tanto para homens quanto para mulheres, mas este crescimento mostra que as mulheres passaram a ser também vítimas da epidemia.

Por que o número de mulheres com HIV aumentou tanto durante os anos, em comparação ao número de homens? A resposta pode estar justamente nessa vulnerabilidade que na adolescência, ao se juntar com a construção da identidade e com o estereótipo d e “doença do outro”, faz com que a mulher se exponha mais ao risco, por confiar demais no parceiro ou por achar que o uso do preservativo depende da vontade do homem.

A autora ainda mostra que as políticas públicas que atendem a mulher na questão sexual, tratam-na ou como uma mulher promíscua ou como uma mãe de família, mas nunca como alguém que simplesmente quer fazer sexo. “É preciso enxergar o papel sexual da mulher e dar opções de prevenção que estejam sob seu controle” afirma Ana Carolina. Esse tratamento dado à mulher, faz com que ela não se sinta parte do “grupo de risco” ao menos que ela seja uma prostituta, fazendo com que não se sinta ameaçada.

Qual é a saída?


Talvez o que melhor defina o trabalho feito pela autora seja o fato de que as pessoas ignoram o que sabem sobre HIV em detrimento de outras escolhas. O estudo mostrou que apesar de os jovens conhecerem os modos de transmissão da Aids e saberem que o sexo é uma das formas de contaminação, eles ignoram esse conhecimento. Isto faz com que os jovens, como foi descrito na monografia, que já se acham invulneráveis por natureza, não se protejam por achar que nada irá acontecer com eles.

Fazer com que as escolas ensinem a educação sexual de uma maneira séria, abordando o tema da forma como os adolescentes entendem a questão, dar á mulher a opção de prevenção própria e mostrar que o HIV não é uma “doença do outro”, mas que está presente em todos os meios pode ser uma saída para a questão abordada no estudo.

O conhecimento é essencial para saber que a Aids não se transmite ao se beijar ou ao tomar líquidos no mesmo copo que um portador do HIV, mas que é sim transmitido por via sexual, e que a prevenção é o melhor remédio. Além disso, é preciso fazer com que a sexualidade deixe de ser um tabu, pois como a autora mesmo diz, a grande dificuldade do trabalho foi achar os entrevistados. “Foi muito difícil encontrar pessoas dispostas a falar sobre isso, mesmo sendo depoimentos anônimos. Senti uma dificuldade maior em falar com os homens”, relata Ana.

Os homossexuais, como já foi dito, por terem medo de contraírem Aids, são o grupo que mais se previne contra o vírus. As demais pessoas ainda não têm esse medo como algo concreto e por isso não se sentem ameaçadas, mas Ana Carolina acredita que a fase do medo já passou. “Acho que agora é importante conscientizar da importância prevenção e de educar os jovens sexualmente”. Mas, como Shakespeare, citado pela própria autora, disse “a melhor segurança repousa no medo.”

O Paraná é rural

por Rikardo Santana da Silva

Censo demográfico de 2000 mostrou um Paraná mais urbano, mas uma análise mais profunda dos fatos mostra outra coisa.

Segundo o censo demográfico de 2000, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 80% do Paraná é urbano. Mas o que os dados não mostram é que na verdade mais de 60% do território paranaense é ocupado por regiões rurais e que cada cidade e cada região têm níveis diferentes de urbanização. Essa ambigüidade levou Anael Pinheiro a desenvolver em sua dissertação de mestrado em Sociologia, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), um estudo mais profundo desses dados, levando-se em conta a geografia paranaense.

Por ter nascido no interior do estado (em Paranacity), Pinheiro conviveu diretamente com esse meio rural. “Eu convivia com a agricultura patronal, que era desenvolvida na região Norte do estado. A partir do momento em que saí da minha região comecei a perceber que existiam diferenças na agricultura de outras regiões do estado, então eu quis aprofundar para saber até onde iriam essas diferenças”, conta.

As diferenças ficam bem evidentes quando se olha o mapa do estado. Enquanto a região Norte tem uma agricultura patronal, ou seja, grandes propriedades de terra com empregados, a região Sul do estado tem predominância da agricultura familiar. Nos mapas da região Norte é dado uma importância maior para a demarcação de terras e de cultivos. Já os mapas da região sul destacam onde estão localizadas as comunidades, onde moram as pessoas nas áreas rurais. Mas o que isso mostra? Que o Paraná não é um só, e que são necessárias políticas públicas específicas para cada região.

Os dados fornecidos pelo IBGE revelam apenas que a população paranaense está vivendo mais nas cidades que no campo, mas não mostra que o território paranaense é amplamente ocupado pela área rural. Nem mesmo a questão da população é definitiva. Não existe uma definição técnica para diferenciar área rural de urbana. As Câmaras Municipais definem, e de acordo com um decreto de 1938, uma cidade com 20 mil habitantes já pode ser considerar urbana.

O que o Pinheiro fez foi usar outros quesitos para definir o que seria a população rural, não levando em conta apenas o número de habitantes, mas também a densidade demográfica e a ocupação da população, onde as pessoas trabalham. Os resultados mostraram que, por exemplo, a mesorregião Metropolitana de Curitiba tem alta taxa de ruralização, ao contrário do que se pensa ao olhar os dados do IBGE. Cerca de 56% dos municípios podem ser classificados como rurais.

O estudo apontou que nem sempre se pode levar como verdade absoluta os dados oferecidos pelos institutos, pois é preciso levar em conta o aspecto regional. “É necessário se fazer uma análise mais profunda dos dados, mostrar o que cada região tem de diferente para podermos pensar em políticas públicas específicas para cada localidade. O Paraná não é um estado homogêneo. É importante mostrar as diferenças resultantes dos processos de ocupação”, constata Pinheiro.

O que o autor fez em sua dissertação foi analisar esses dados juntando a sociologia com a geografia. O uso desses diferentes campos, unido a uma análise profunda dos dados, revelou que a população rural, apesar de ser pequena precisa ser levada em conta. “Hoje em dia, só se noticia que o rural está diminuindo, que o rural está acabando, mas essa população ainda existe. Os dados são mostrados como se fosse o fim do meio rural, mas no Paraná mais de dois milhões de pessoas estão vivendo nessas áreas, e elas precisam ser atendidas”, finaliza Pinheiro.