quinta-feira, 30 de julho de 2009

Paranóia

Nova gripe faz universidade de Londrina cancelar aulas
http://noticias.terra.com.br/gripesuina/interna/0,,OI3843341-EI13839,00-Nova+gripe+faz+universidade+de+Londrina+cancelar+aulas.html

Mais escolas adiam as aulas
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=909383&tit=Mais-escolas-adiam-as-aulas

Escolas e universidades públicas aderem à suspensão de aulas
http://portal.rpc.com.br/jl/online/conteudo.phtml?tl=1&id=910100&tit=UFPR-suspende-aulas-a-partir-de-hoje

OMS sugere cancelamento de eventos públicos
http://jc.uol.com.br/canal/gripe-mundial/noticia/2009/07/28/oms-sugere-cancelamento-de-eventos-publicos-194856.php

Justiça determina cancelamento de shows em Jaguariúna (SP) após 4 mortes
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u570548.shtml

Mas o Brasileirão continua. Nâo é aglomeração?

Hoje eu vou falar aqui de uma doença que vem causando muitas mortes mundo afora. De transmissão aérea, a doença é controlada evitando o contato com pessoas infectadas e aglomerações. Se você começar a manifestar os sintomas, procure imediatamente um médico. Se for confirmado a doença, você irá ficar em uma área isolada recebendo o tratamento. Essa doença que eu estou falando está conosco há muitos anos e mata milhões de pessoas por ano. Não, não é a tão falada gripe A, é a tuberculose.

Mas, porque eu estou falando de tuberculose num momento em que o mundo todo se preocupa com a já famosa gripe suína? Por que quero mostrar que essa verdadeira paranóia criada em cima da doença não tem sentido lógico. A tuberculose é um grande exemplo. De transmissão aérea, a doença mata, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1,9 milhões de pessoas e deixa mais de 8,7 milhões de infectados por ano no mundo. Acha muito? Pois essa doença está entre nós há muito mais tempo do que a gripe A e é causada por uma bactéria, que pode ficar em estado latente em seu organismo, sem desenvolver a doença. O pior de tudo é que era previsto no início do século que ela estivesse extinta até 2010. Tolo engano, os casos só aumentaram nos últimos anos, principalmente em países menos desenvolvidos, incluso o Brasil, muito por causa da Aids.

E agora, o que vamos fazer? Ficar desesperados pela tuberculose, começar a usar máscaras e nos esconder em casa? Não! Vamos continuar vivendo nossa vida normalmente, sempre tomando precauções para não pegarmos a doença. Você pode me perguntar agora: "Mas não é isso que estamos fazendo?" e eu respondo que não. O que estamos fazendo é apenas criando pânico em torno de algo que, comparado com diversas outras mazelas, não é nada. Estes cuidados (limpar bem as mãos, ventilar lugares fechados e manter a higiene. Não o uso de máscaras, que só servem para quem já está infectado ou cancelar eventos e aulas, como se a gripe, e todas as outras doenças, fossem sumir em uma semana) nós deveríamos ter todos os dias e não só por medo.

Talvez esta seja a grande contribuição desta paranóia. Aqui em Curitiba, muitas pessoas andavam nos ônibus com as janelas fechadas, por causa do frio, o que me indignava ao máximo (se não gosta de frio, o que está fazendo aqui?) pois ninguém se importava com a própria tuberculose, com a meningite e com a gripe comum mesmo (que mata cerca de 250 mil pessoas todos os anos no mundo, e ninguém usava máscara por causa disso). As pessoas não entendiam que o que passa a doença é o vírus e não o frio. Provavelmente vamos ver um decréscimo no número dessas doenças, porque o medo já fez com que as janelas não se fechem.

Já falei aqui em um post anterior sobre a Aids, que ainda hoje, apesar de muitas campanhas de prevenção contamina vários jovens por eles se acharem invulneráveis. A pandemia da Aids é outro bom exemplo por isso. A frase do ator Wagner Santisteban, talvez exemplifique isso. Ele disse no twitter: "Quatro mil pessoas têm gripe suína e todo mundo quer usar máscaras. 33 milhões têm aids e ninguém quer usar camisinha!". Essa está sendo a tônica desta pandemia: Todo mundo se esqueceu que as doenças estão por aí e a gripe A não é o único vírus a causar mortes e que necessita de precauções.

Se deixarmos as doenças respiratórias e a Aids de lado, podemos ver inúmeros exemplos de que esta paranóia não tem sentido. Milhares de pessoas morrem de cólera, dengue, febre amarela, febre tifóide, doença de chagas, ebola, malária, leishmaniose, peste bubônica além de sofrerem complicações de outras doenças infecto contagiosas. Todas estas doenças poderiam ser facilmente extintas se houvesse saneamento básico universal, o que está muito longe de acontecer, no entanto não vejo nenhuma campanha da mídia alertando sobre isso, fazendo com que os cidadãos exijam seu direito de ter uma boa saúde através de um saneamento básico, que é barato e fácil de se fazer, ao invés disso ganhamos máscaras.

Poderia ficar dias falando sobre outras coisas que causam muito mais danos e que nem nos damos conta. O cigarro, por exemplo, mata milhões de pessoas por ano e continuam a surgir novos fumantes e muitas pessoas não ligam de serem fumantes passivos ou de fumar narguile (espécie de fumo muitíssimo mais prejudicial que o cigarro comum por conter água e fazer com que a "sujeira" do fumo se impregne no pulmão). Há também os acidentes de trânsito, principalmente os causados por motoristas bêbados, drogas, e diversas outras causas mortis muito mais frequentes e terríveis que ninguém se dá conta.

Já foi a "onda" da dengue, da febre amarela, da doença de chagas e agora chegou a gripe A. O que a mídia faz, ao criar essa paranóia, não é alertar a população no intuito de se proteger e sim criar pânico e também a necessidade de se manter informado, fazendo os meios ganharem mais, já que eles vendem informação. Não é errado vender informação, afinal eu sou um jornalista e irei fazer isso no mercado de trabalho, o que é errado é fazer o que está sendo feito, onde apenas o que se faz é instigar o medo.

Então o que podemos fazer? Existe dois meios de informar: o modo como estamos fazendo agora e informar de forma a conscientizar. Devemos ir ao cerne desse problema e de todas as outras doenças. A falta de saneamento básico, permanência em locais fechados sem ventilação e hábitos ruins são alguns deles e é dever da mídia mostrar isso de forma a fazer as pessoas compreenderem e mudarem suas atitudes, não por medo e de forma momentânea, mas pelo entendimento lógico e de maneira contínua.

Hoje muitas pessoas não deixam água parada em nenhum lugar, pois sabem que mosquitos transmissores da dengue podem usar para botar ovos. Isso foi uma conscientização, mas não foi o pânico que criou isso, mas sim a informação. É certo que um pouco de medo ajuda nas tomadas de decisões, mas como tudo, em excesso só prejudica.

O que pode ficar dessa paranóia é que talvez ninguém mais fique com as janelas fechadas no inverno com medo do frio, pois irão saber que o que transmite a doença é o vírus e com quanto mais circulação menor as chances de se contrair a doença. A oportunidade de se falar de todas estas doenças que citei está nas mãos da mídia. Todos estão prestando atenção e sabemos que mais tempo ou menos tempo a gripe vai sair do noticiário, mas a conscientização vai ficar pra sempre, depende de que informação tivermos.

Limpar bem as mãos e ventilar os lugares não é a paranóia, a paranóia está em achar que está é a maior ameaça que temos a nossa saúde. Paranóia está em cancelar aulas nas escolas e universidades, como se o vírus fosse simplesmente desaparecer em uma semana. Colocar uma placa dizendo "Proibido a entrada de vírus" seria tão eficiente quanto o cancelamento, o vírus está em todos os lugares. É preciso mostrar que há outras doenças e que outras virão, ao menos que tomemos atitudes. Muitas destas atitudes dependem do governo e nada mais sensato que mostrar isso agora em período de eleição.

Lembrem-se que a tuberculose era para estar extinta até 2010, mas ela ainda está entre nós, muito pela falta de cuidado com a doença, já que é necessário tomar o medicamento durante seis meses para fazer efeito, e a falta de consiência e de informação da população. Assim como não é culpa do frio ela ainda existir, também não vai ser por causa das máscaras ou cancelamento de aulas que a gripe suína vai desaparecer.

UPDATE:

Dica da leitora do blog Karla Dudas, vídeo sobre o que está por trás dessa paranóia. Veja e tire suas próprias conclusões:

Link:

http://www.youtube. com/watch? v=CcgCBiyGljM&eurl=http%3A% 2F%2Fwww. sedentario. org%2Fvideos% 2Foperacao- pandemia- o-que-ha- por-tras- da-gripe- suina-18136&feature=player_ embedded

O poeta da humanidade

Obras de Shakespeare influenciaram gerações de escritores, porque?

O ano era 1580. Em Portugal, com a morte do rei D. Henrique I, o país perde a independência para a Espanha. A Sibéria começa a ser conquistada pela Rússia. Juan de Garay descobre a região que hoje é Buenos Aires. Também naquele ano, o inglês sir Francis Drake circunavegou o globo, mas se ele soubesse que em Londres iria acontecer a primeira apresentação teatral de um dos maiores dramaturgos da história, talvez ele adiasse sua viagem para depois disso.

No Globe Theatre, na capital britânica, foi que William Shakespeare apareceu para o mundo, primeiro como ator, mas em pouco tempo seu talento para compor peças seria reconhecido e o transformaria num dos maiores dramaturgos da história, fazendo suas obras serem importantes mesmo centenas de anos depois de sua morte.

Ser ou não ser? Matar ou não matar? Morrer ou não morrer? Viver ou não viver? Amar ou não amar? Estas são dúvidas presentes nas obras de Shakespeare. Alguns destes questionamentos, e tantos outros presentes em sua obra são os mesmos que fazemos a nós mesmos na esperança de encontrar uma resposta. Tentamos encontrar significados para o que fazemos, motivos, algo que justifique nossas ações e até mesmo nossa existência, e quando erramos, tentamos lavar nossas mãos na esperança de que a água leve nossos erros.

Todos estes questionamentos foram há muito tempo explorados por vários escritores, por filósofos, psicólogos e vários outros estudiosos, mas quando vamos olhar quem é o mais conhecido difusor destas dúvidas do âmago humano vamos nos deparar com um inglês nascido no ano de 1564 na pequena cidade de Stratford-upon-Avon. Ele era o mesmo jovem que se apresentou no Globe Theatre em Londres e que o sir Francis Durke perdeu por estar dando a volta ao mundo.

Tão famoso como seu nome foram suas obras, que mesmo quem nunca sequer as leu ou foi ver uma peça sobre elas, sabe suas histórias. Shakespeare escreveu tanto comédias, tragédias e dramas históricos como poemas, e com estas obras influenciou gerações de escritores mundo afora, inclusive no Brasil, onde podemos perceber esta influencia no maior escritor brasileiro Machado de Assis.

Mas porque as obras de Shakespeare são tão importantes? Parte da resposta está no fato e que as obras de Shakespeare mostram um ser humano mais humano do que outras obras do mesmo período ou de épocas anteriores. Não era um herói grego o protagonista da história, mas sim um ser humano passível de erros, que tinha consciência, pensava sobre seus atos, que se arrepende e que principalmente queria algo, tinha sonhos. Estes sonhos ás vezes não eram alcançados, como na vida. O destino é mais cruel e impõe barreiras aos sonhos, como nas obras do dramaturgo inglês.

Tragédias da vida real

Romeu e Julieta. A história é simples: um casal de apaixonados quer se casar, mas os pais são de famílias rivais e impedem isso. Julieta elabora um plano de fingir-se de morta para fugir com seu amado. Romeu não sabe do plano, vê sua amada morta e decide se matar, quando Julieta acorda percebe Romeu morto e também se mata. Com certeza você já deve ter ouvido esta história de várias maneiras diferentes, em várias roupagens e cenários, mas foi Shakespeare que a transferiu para a ficção.

A grande pergunta a se fazer é a seguinte: Shakespeare seria tão famoso se Romeu e Julieta terminassem felizes para sempre? Se Macbeth não matasse o rei da Escócia? Se Othelo não ficasse cego pelo ciúme e matasse Desdemona? Se não houvesse algo de podre no reino da Dinamarca? É claro que não seriam mais tragédias, mas será que seriam grandes obras citadas por várias gerações como são? Talvez não. Isso porque estas histórias do dramaturgo só são tão aclamadas justamente por mostrarem todos os sentimentos humanos em suas mais variadas formas possíveis.

Esta percepção de que a obra shakesperiana é importante para a compreensão humana já foi estudada por vários críticos literários, entre eles está Harold Bloom, que escreveu o livro “Shakespeare: A invenção do humano”. Bloom vai além da idéia de que o inglês tenha apenas retratado o humano, para ele Shakespeare inventou o que é ser humano. Ele afirma isso ao fazer uma análise de todas as obras e mostrar as representações humanas presentes nelas.

Ao não mostra um happy end, estas obras acabaram ficando eternizadas na memória coletiva da civilização ocidental como uma representação de como nos comportamos, nossos medos, nossas virtudes e nosso modo de ser. Quando é mostrado o ciúme doentio de Othelo, não se está apenas falando do personagem, mas sim de todos aqueles que já ficaram cegos e se renderam a fofocas ou a provocações. A loucura de Hamlet, a obssesão de Macbeth, o caso de amor de Antonio e Cleóprata, a prova de amor não apresentada por Cordélia em Rei Lear, tudo isso tem uma representação na vida real de alguma forma. Inveja, raiva, ciúme, desejo, sonhos, amor, ódio, tudo isso está presente na obra shakesperiana, em grande ou pequena dose. Mas há mais coisa entre o céu e as obras do que imagina nossa filosofia.

Ler ou não ler?

A importância da obra de Shakespeare já está mais do que estudada. Seus textos são altamente difundidos ao redor do globo, e não apenas do teatro globo. Mas então fica a pergunta: Porque ler Shakespeare? Suas histórias são tão difundidas e citadas que fica mais fácil ficar parado e aprender por osmose do que se dispor a emprestar uma obra dele e lê-la.

O motivo para ler suas obras é o mesmo que provavelmente o sir Durke teve ao sair numa volta ao mundo: conhecer o mundo através de seus olhos e não dos outros. Será que esta importância dada ao dramaturgo inglês será eterna? Shakespeare sempre será citado? Não sei, mas sei que suas obras estarão nas bibliotecas à espera de alguém que a leia e a interprete de uma maneira diferente, ou que se veja representada nela.

A forma como o poeta descreveu o ser humano foi uma das mais completas já vistas na literatura e isso o transformou em um dos maiores escritores da história, inspirando outros autores, como Goethe e Machado de Assis, assim como cineastas como Akiro Kurosawa e vários outros que transcreveram as emoções humanas dos palcos para as telas. Shakespeare não vivia em uma época como a nossa, mas as emoções e as nossas características de tomar decisões ou de não tomá-las é eterna e independente de geração, e é isso que faz da obra dele importante.

Shakespeare de certa forma foi um sociólogo antigo. Mostrou como somos, como são nossas emoções, como são nossos sentimentos e de certa forma suas obras foram um espelho não só de uma sociedade, mas de uma espécie. A diferença dele para os sociólogos é que ele não fez análises, não fez estudos e muito menos pesquisas, apenas retratou o que via. Como o próprio Shakespeare dizia “Lutar pelo amor é bom, mas alcança-lo sem luta é melhor”, assim como analisar a humanidade é bom, mas conseguir entende-la sem análise é melhor, foi o que ele fez.

PIT STOP

Mais uma edição do seu programa de automobilismo.

Link:
http://www.youtube.com/watch?v=Btrw04hNIEc

sábado, 25 de julho de 2009

Entrevista: “Não se valoriza a divulgação científica”

por Rikardo Santana da Silva

Torcedor fanático do Comercial de Ribeirão Preto, interiorano com muito orgulho e palmeirense por opção, já que mora na cidade de São Paulo. É assim que Wilson da Costa Bueno se define em seu blog na internet (www.blogdowilson.com.br). Atual presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), Bueno, em entrevista concedida á UNIVERSO Humanas, conta como anda a divulgação científica no Brasil. As notícias não são tão agradáveis. Apesar do crescimento que tem se visto nos últimos anos, ainda temos um caminho longo a percorrer.

P: A população está interessada na divulgação científica?

R: Depende do nível de informação dessa “população”, mas em princípio temas científicos chamam a atenção, particularmente quando são espetaculares. O fundamental é mudar essa situação, com uma cobertura competente e regular da ciência e da tecnologia. Há excelentes pautas para serem divulgadas.

P: Como a mídia tem divulgado a ciência ultimamente?

R: Há dois cenários possíveis. A mídia especializada ou que dispõe de profissionais capacitados para essa divulgação tem realizado um trabalho competente, de qualidade, mas em geral há problemas com a divulgação na imprensa brasileira, ainda carente de profissionais e sobretudo pela visão equivocada de editores e empresários da comunicação com relação à importância da divulgação científica.

P: Como fazer para que esses empresários da comunicação deem mais atenção para a divulgação científica?

R: Não é uma tarefa fácil, e é fundamental que os jornalistas comprometidos com a divulgação científica façam um bom trabalho de convencimento interno nas redações.

P: O jornalismo científico tem avançado nos últimos anos?

R: Bastante, em particular na Web, onde novos espaços têm sido abertos para a divulgação da ciência e da tecnologia.

P: E a qualidade, também aumentou?

R: Sim, sobretudo pela melhor capacitação dos jornalistas, embora tenhamos ainda muitos desafios a vencer. Além disso, algumas universidades e institutos de pesquisa têm se dado conta da importância de democratizar o conhecimento científico e implantado estruturas profissionais de comunicação.

P: Se há um crescimento de cursos especializados e o interesse em ciência tem aumentado, o que falta para a divulgação científica ser ampliada e melhorada?

R: Falta envolver, no caso brasileiro, um número maior de veículos e sensibilizar editores e empresários. Mas ela tem sido ampliada e melhorada ao longo do tempo, em particular neste século.

P: Qual a qualidade dos cursos que estão surgindo?

R: Os propostos por universidades de prestígio (como, por exemplo, Unicamp) são de bom nível, e há boas propostas que deverão ser implementadas em breve.

P: Por que o interesse, principalmente dos universitários, no jornalismo científico tem aumentado?

R: Pela emergência de temas de relevância, como células-tronco, mudanças climáticas, nanotecnologia, transgênicos etc etc. Enfim, a ciência e a tecnologia ocupam hoje papel importante na vida dos cidadãos e impactam o seu mundo.


P: O que um estudante universitário pode fazer para contribuir para o desenvolvimento da divulgação científica?

R: Buscar informações qualificadas sobre os temas que estão na agenda da mídia e da sociedade, identificar fontes para essa cobertura, ler textos básicos sobre história, sociologia e filosofia da ciência e sobre o sistema de produção científica. Será fundamental acompanhar o dia-a-dia dos principais centros de excelência nessa área no Brasil. Isso é possível com uma boa navegada pelo site das nossas principais universidades e centros produtores de conhecimento. Ler as revistas de divulgação científica (Ciência Hoje, Revista Pesquisa FAPESP, Minas faz Ciência, Galileu, Super Interessante, Scientific American Brasil) é também uma maneira de acompanhar a área.

P: O jornalismo científico hoje no Brasil não fica muito restrito a pautas que estão ligadas a outros países?

R: Depende. Nos veículos que mantêm editorias e profissionais capacitados para esta cobertura, a ciência e a tecnologia brasileiras já ocupam um espaço e tempo importantes, mas, em geral, você tem razão: estamos ainda a reboque da notícia e do material importado.

P: Como a mídia poderia melhorar a cobertura da ciência produzida no Brasil?

R: Capacitando os profissionais para essa cobertura, abrindo tempo e espaço para a divulgação científica e, sobretudo, exercendo o papel que dela se espera do ponto de vista da formação dos cidadãos.

P: Os estudos acadêmicos tem alguma divulgação por parte da mídia?

R: Tudo depende da estrutura do instituto de pesquisa ou da universidade onde os estudos são realizados. As universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp) fazem uma boa divulgação de suas pesquisas (mas ainda aquém do ideal), alguns institutos e empresas de pesquisa são absolutamente competentes nessa divulgação (casos da Embrapa e da Fiocruz). Em geral, como as estruturas de divulgação são tímidas e falta consciência da importância da divulgação científica, não se pode generalizar mesmo. O panorama geral a esse respeito no Brasil não é favorável, muito longe disso.

P: As universidades brasileiras têm produção científica suficiente para a mídia cobrir?

R: Muito mais do que a mídia precisaria para dar um espaço digno para a ciência e a tecnologia nacionais. Elas não têm, em geral, embora estejam melhorando com respeito a este aspecto, estruturas ágeis e competentes para disseminar os resultados de pesquisa e os seus projetos, mas o problema não é mesmo produção.

P: Uma melhor estrutura de divulgação por parte das universidades poderia fazer com que a dependência de matérias "importadas" diminua?

R: Com certeza, essa é certamente a melhor alternativa para incrementar a divulgação da pesquisa brasileira. O problema não são as matérias importadas, mas a ausência maior de boas pautas nacionais, sobretudo as que se originam fora do eixo Rio/São Paulo e das universidades de maior prestígio (USP, Unicamp, Unesp, UFRJ etc).

P: Por que o jornalismo científico fica restrito aos fatos sensacionais?

R: Por um viés da mídia e falta de consciência dos editores e empresários da comunicação. O sensacionalismo infelizmente ainda predomina na cobertura.

P: Quais são os perigos éticos que um jornalista que trabalha com ciência terá de enfrentar?

R: Há interesses de toda ordem rondando a produção e a divulgação científica. Posso apontar interesses privados (indústria da saúde, da biotecnologia, agroquímica, de papel e celulose etc etc), interesses políticos, militares etc. Há fontes aparentemente independentes, mas que são bocas alugadas de grandes corporações. Logo, todo cuidado é pouco.

P: Como o jornalista que trabalha com ciência pode identificar os interesses de empresas e governos e fugir deles?

R: Confrontando as fontes, buscando identificar os compromissos dos pesquisadores que escrevem ou dão entrevistas para a mídia, tendo maior conhecimento do tema que vai ser coberto etc. Em princípio, toda informação deveria merecer este tipo de crivo. Há muitos interesses (comerciais, políticos, militares, econômicos etc) em jogo nesta área.

P: Você afrima em um de seus artigos que o jornalismo científico tem que investigar mais. Como o jornalista pode fazer essa investigação do assunto?

R: A principal investigação a ser feita é sobre os interesses de quem está gerando a informação científica. Como mencionado na resposta anterior, há interesses de toda ordem em jogo, e governos e empresas privadas são agressivos no sentido de vender pautas que os favorecem.

P: Como é a divulgação científica em outros países?

R: Em alguns países (Estados Unidos, Japão, França ,Espanha, Alemanha, Reino Unido, para só citar alguns exemplos), há uma consciência maior sobre a importância da divulgação científica, e institutos de pesquisa e universidades estão interessados em divulgar seus resultados e projetos porque sabem que, com isso, legitimam a sua atuação. Os bons jornalistas científicos brasileiros, no entanto, nada ficam devendo aos colegas de outros países.

P: Por que institutos de outros países têm mais interesse em divulgar suas pesquisas do que os brasileiros? Existe algum receio por parte das nossas instituições?

R: Não, não há receio em geral (embora isso possa acontecer pontualmente), mas há mesmo uma falta de cultura de comunicação. No Brasil, com raras exceções, não há interesse ou disposição para compartilhar as informações especializadas com o público leigo. Não se valoriza a divulgação científica; pelo contrário, posso afirmar que há até preconceito de determinados segmentos e do próprio Governo (apesar do discurso contrário) com respeito sobretudo ao jornalismo científico.

P: Por que ocorre esse preconceito do Governo quanto ao jornalismo científico?

R: O preconceito não é bem do Governo, mas de pesquisadores que trabalham para o Governo e que não conseguem se comprometer com a divulgação e com o jornalismo científico porque não julgam importante o diálogo com a sociedade.

P: A divulgação de estudos na área de humanas é menor do que de outras áreas?

R: Absolutamente menor e isso se deve tanto ao predomínio das chamadas “ciências duras” e ao preconceito em relação às ciências humanas. Nas relações de poder, as engenharias, as ciências físicas e biológicas prevalecem na direção dos institutos, nas prioridades de investimento em pesquisa etc. Há veículos que não dão às chamadas ciências humanas o estatuto mesmo de ciências.

P: E a produção de pesquisas na área também é menor?

R: A produção de pesquisa na área de Humanas pode não ser menor, mas tudo depende mesmo de quem avalia essa produção. Em princípio, há também preconceito com respeito às Humanas, sobretudo por colegas de outras áreas que costumam usar seus "instrumentos" para avaliar a relevância das pesquisas na área. Devemos também ter culpa no cartório.

P: O que a ABJC faz para melhorar essa divulgação da ciência?

R: Para ser sincero, temos feito muito menos do que deveríamos fazer, seja por falta de estrutura ,seja porque temos sido acomodados ao longo do tempo. Estamos despertando agora para esse papel, que temos cumprido apenas em parte. Realizamos eventos, ampliamos o debate sobre a capacitação na área, mas é preciso reconhecer, precisaríamos fazer muito mais. Jornalistas e professores costumam ser muito ocupados, e este é sempre o nosso caso, mas acho que não nos empenhamos o suficiente e não temos tido competência para mobilizar mais gente. Quem sabe, com gente jovem chegando,a gente consiga oxigenar a ABJC e dar um salto qualitativo nessa contribuição.
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http://www.youtube.com/watch?v=i-1_C05fLns

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Site da semana - Game Over

Eu sou um grande apreciador do vídeo-game. Acho que assim como livros, filmes e músicas fazem parte da nossa cultura. Como ele ainda é muito novo, enfrenta muita resistência de muitos conservadores, mas de fato isso vem mudando com o tempo. Vários estudiosos já colocam o vídeo-game como um grande influenciador cultural. Para se ter ideia, a mídia mais vendida no mundo no último ano foi um jogo, o Hallo 3.

Uma das muitas razões para muitos amaldiçoarem os games é que eles servem como forma de matar tempo no trabalho. Bom se isso é verdade, então aquela pessoa realmente não tem nada para fazer na empresa, porque as empresas não diminuem a carga horária então? Mas isso é assunto para outro post, pois o site da semana é justamente para esses que querem matar tempo no trabalho, ou aqueles que já se encheram dos mesmo jogos. O Kongregate é uma espécie de YouTube dos games. Lá qualquer um pode postar um jogo que tenha feito. Produto cultural ou não, uma coisa é certa: o vídeo-game é o símbolo de nossa geração. Bom jogo!

http://www.kongregate.com/

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Novidades da astronomia

Nesta segunda-feira, um astrônomo amador australiano noticiou algo de errado com o planeta Júpiter, uma grande mancha branca no pólo sul do planeta. Depois de alguns estudos preliminares, os astrônomos descartaram a hipótese de um fenômeno metereológico comum do planeta. A teoria mais provável é que um cometa de tamanho semelhante ao planeta Terra tenha colidido com o gigante gasoso.

Mais uma vez Júpiter pode ter salvado nosso planeta. Por ter uma massa muito grande (maior que a de todos os outros planetas juntos) o planeta age como um imenso (e bota imenso nisso)imã, que atrái asteróides para a sua órbitra, evitando que colidam com a Terra. Mais uma evidência de que a vida na Terra pode ter sido só um acaso apenas mesmo, porque se não houvesse Júpiter, muito provavelmente a vida aqui seria inviável já que seríamos atingidos por grandes objetos com mais frequência, mas enfim, o fato é que estamos aqui e devemos muito ao nosso "guarda-costas" estelar.

Aproveitando o assunto, ocorreu ontem o eclipse solar mais longo que veremos nesse século. O fenômeno só pode ser observado na Ásia e algo semelhante só vai voltar a ocorrer daqui á 123 anos! Quem viu viu, quem não viu fica com as imagens.


Planeta Júpiter sendo atingido (Foto: NASA)


Eclipse solar na Ásia (Foto: BBC)

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Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=RvzxyBf2sn4

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Feliz 40 anos de homem na Lua!


Símbolo do projeto Apollo, NASA

Há exatos 40 anos, dia 20 de julho de 1969, o mundo parava para ver, ou ouvir, a chegada do homem á Lua. Quando Neil Armstrong disse a famosa frase "um pequeno passo para o homem mas um grande passo para a humanidade", a raça humana conquistava a barreira do espaço sideral, provamos que éramos capazes de ir além e o céu não era mais o limite.

Mas é claro que houve, e ainda há, pessoas que não acreditaram e não acreditam nisso, que acham que foi uma invenção, que acham que os Estados Unidos enganaram cientistas do mundo inteiro durante anos, mas não aos incrédulos, que apesar de não terem nenhuma formação científica criticam a ciência dos outros, o que é bem normal na ciência. Quem nunca ouviu um estudo científico e, apesar de saber que a pessoa autora do projeto passou meses, até quem sabe, anos pesquisando o assunto para chegar aquela conclusão e alguém desmonta tudo com um "ah, isso é bobagem". Infelizmente a ignorância ainda reina no mundo.

A chegada do homem á Lua não foi uma conquista americana, foi uma conquista da ciência humana, assim como a descoberta das ondas de rádio, da criação do avião, das teorias da física, do desvendamento do genoma humano, do desvendamento da nossa mente e de todas as outras descobertas científicas, tudo isso não tem nacionalidade é de todos nós.

A propagação da "notícia" de que o homem não havia ido á Lua não partiu de nenhum soviético querendo desmerecer os americanos, mas sim de um próprio americano, aliás de americanos, que viam aquilo como uma afronta á Deus, já que Deus estava no céu e o homem nunca poderia chegar lá. Se isso fosse verdade, você provavelmente não estaria conectado ao mundo agora através de celulares, Internet e tampouco usaria GPS, que dependem em algum momento de um satélite que está em órbita ao redor da Terra.

Argumentos contra, falam que não havia tecnologia, que foi uma farsa, mais um filme de ficção e que se fosse verdade, porque só foram uma vez? Todos argumentos que só mostram a total e completa ignorância no assunto.

Primeiro que em 1945 o homem mostrava que a ciência também poderia ser mortífera ao lançar a bomba atômica em Hiroshima, matando centenas de milhares de pessoas. Agora fica a pergunta: Se tínhamos tecnologia suficiente para destruir o mundo será que não teríamos para ir á Lua? Além disso, o programa lunar não começou do nada. Os Estados Unidos tiveram dois programas espaciais antes do Apollo, o Mercury e o Gemini. Após anos de estudos, de gastos astronômicos, desenvolvimento de tecnologia específica (muitas que hoje estão em seu PC) e mortes de astronautas (no projeto Gemini ainda), o homem chegou á Lua no Apollo 11, e não foi só essa vez, foram lá uma dezena de vezes e só pararam de ir porque não era mais vantajoso gastar milhões de dólares para trazer mais pedras lunares.

Quanto a ser um filme de ficção é uma ideia bem interessante mesmo, porque se fosse, teria sido o mais real da história, enganou cientistas, milhões de espectadores e até os soviéticos, que poderiam usar isso para ridicularizar os americanos. Mas se fosse, então Yuri Gagarin quando disse que a Terra era azul e branca, poderia estar encenando também, afinal ir ao espaço e ir á Lua não é lá tão diferente (apenas 4 dias de viagem até a Lua). Depois de anos de gastos, como já disse, astronômicos, garanto que daria para fazer uma super produção muito mais elaborada do que a simples ida do homem á Lua, porque não ir á Marte então?

Enfim, a 40 anos o homem chegava á Lua, você acreditando ou não. Assim como ondas de rádio existem, você acreditando ou não, assim como navios de toneladas flutuam no oceano por causa de uma misteriosa força chamada empuxo, você acreditando ou não, assim como um avião de toneladas voa ignorando completamente a ação da gravidade, você acreditando ou não. Existem coisas muito mais absurdas do que ir a Lua que acontecem mas que não nos damos conta. Ir a Lua não é difícil. O que é difícil é acabar com a ignorância humana.

Naquela mesma década o mundo viu mais acontecimentos incríveis, e muitos deles tendo os Estados Unidos como protagonistas como a Guerra do Vietnã e o movimento dos direitos civis liderado por Martin Luther King. A luta de Luther King era contra a ignorância humana, contra a cegueira que impedia aquelas pessoas de verem que nós éramos todos iguais, que estávamos todos no mesmo barco, no mesmo, como Carl Sagan falou, pálido ponto azul, que só sabemos que é azul porque fomos ao espaço. O que isso tem a ver com a chegado do homem á Lua? Além de terem acontecido na mesma época, nada, mas o que podemos concluir disso é que não ver a verdade está muito mais ligado ao ser humano do que imaginamos. Podemos mudar o mundo, mas para isso temos que acabar com esse reino da ignorância.

Acredite no que quiser, mas nunca se esqueça que essa conquista também é sua.

Here Men From Planet Earth First Set Foot Upon The Moon. July 1969 A.D. We Came In Peace For All Mankind.
(Aqui os homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua. Julho de 1969. Viemos em paz, em nome de toda a humanidade).

Frase da placa que a Apollo 11 colocou na Lua.

sábado, 18 de julho de 2009

Você acredita em zumbis?

por Rikardo Santana da Silva

A idéia dos mortos-vivos já foi abordada por diversos livros, filmes e jogos, além de habitar o imaginário popular. Mas será que de fato estes seres existem? Se você assistir ao documentário “Os mortos andam”, ele mostrará que sim, eles existem. Usando os mesmo elementos de um documentário “normal” é possível construir uma realidade. Você acredtita em tudo que vê?

Em junho de 2007, na cidade de Curitiba, sete jovens morreram de uma forma um tanto diferente e horrível. Eles foram devorados. Foram devorados por mortos-vivos. Você não acredita? Pensa que é bobagem? Pois saiba que casos como esses não são tão difíceis de ocorrer e que os zumbis estão mais vivos do que você possa imaginar.

Apesar de serem poucos, os ataques de zumbis costumam serem devastadores e raramente deixam sobreviventes. Neste episódio, acima citado, foi uma das exceções em que alguém se salvou para contar a história. Camila Dias perdeu sete amigos naquele fatídico dia e conta como ocorreu o acontecido: “É, os zumbis grunhiam e batiam nas portas, nas janelas e quando eu vi que eles iam entrar eu me escondi num banheiro, e foi por isso que eu sobrevivi, mas todos os meus amigos morreram, foram comidos e, mesmo assim, ainda tem gente que não acredita que os zumbis existam que não pensa em combatê-los”, relata.

Neste momento o leitor deve estar se perguntando se de fato comprou uma revista científica, se quem está escrevendo a matéria não ficou louco com tanto trabalho para fazer ou algo do tipo, mas lhe garanto no final desta matéria você irá compreender completamente sobre o que se trata esta reportagem, mas primeiro vamos descobrir como os zumbis surgem, como atacam e como podemos nos prevenir e nos defender.

Os zumbis.

Camila ficou tão traumatizada que resolveu fazer em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) em jornalismo pela Universidade Positivo (então Centro Universitário Positivo) o vídeo documentário sobre os zumbis “Os mortos andam”, onde ela mostra como os estes seres atacam suas vítimas e as precauções que devemos tomar . “A mídia não faz a cobertura que deveria fazer sobre isso. Pessoas estão morrendo e ninguém sabe”, desabafa Camila.

Para fundamentar sua pesquisa, a autora usou um livro muito conhecido daqueles que acreditam na existência dos zumbis e que mostra como combatê-los. O nome do livro é “The Zombie Survival Guide” (O guia de sobrevivência contra zumbis) de Max Brooks. No livro, Brooks mostra meios de proteção e defesa em caso de ataques.

O cinema tem uma extensa lista de filmes que falam sobre zumbis. Jogos de vídeo games também freqüentemente utilizam estes seres como personagens. Mas isto é apenas ficção. Os verdadeiros zumbis não são como os retratados nestas obras ficcionais. Segundo Brooks, os mortos-vivos não têm uma capacidade física elevada e muito menos são inteligentes. Por serem corpos em decomposição, são frágeis e pouco perigo representam quando estão sozinhos, o perigo é quando andam em grupo que é quando acontece as tragédias.

Mas o que faz um zumbi virar zumbi? Camila explica, através do livro de Brooks, que um vírus chamado Solanum infecta o ser humano a partir da mordida de um zumbi ou se algum fluído do infectado cair em uma ferida do indivíduo saudável. O vírus foi descoberto em 1955, pelo doutor Jan Vanderhaven, considerado o primeiro zumbologista (especialista em zumbis) do mundo. A partir da infecção começa uma reação que em cerca de 23 horas irá transformar o ser humano em um morto-vivo, como pode ser visto no quadro acima. A grande diferença dos corpos dos zumbis para os nossos, além do fato de estar em decomposição, é sua independência de oxigênio e sua vontade incontrolável de comer carne humana. Mas como podemos nos proteger destes seres?

Camila sobreviveu porque se escondeu no banheiro e assim os zumbis não a encontraram, mas na verdade, todos os seus amigos poderiam não ter morrido se tivessem prestado atenção nos sinais de que existem zumbis por perto, como epidemias estranhas ou mortes inexplicáveis. Mas eles também poderiam prevenir-se seguindo algumas dicas que a organização não-governamental Aliança Internacional Anti-Zumbis (IAZA, na sigla em inglês) recomenda, como trancar todas as portas e janelas, achar armas leves e guardar mantimentos.

Você ainda não está acreditando na história contada nessa matéria? Acha que a existência de mortos-vivos é uma bobagem? Acha que tudo isso foi uma invenção só para iludir sua mente? Então continue lendo a matéria e você terá algumas surpresas.

Construção da realidade

De fato zumbis não existem (será?), mas um TCC falando sobre zumbis não foi nenhuma invenção. Camila Dias de fato fez um vídeo documentário falando sobre o perigo dos zumbis, contando a história daqueles sete jovens que morreram e se colocando como personagem da história. A única invenção aqui foi a frase de Camila justificando seu trabalho, dizendo que a mídia não mostrava o perigo dos mortos-vivos, seu real objetivo era outro. “Espero que meu documentário sirva como um alerta. Se a informação é o mais importante, não entupa seu produto de apelos emocionais, música triste e personagens criados”, agora sim relata a autora. Mas o que isso quer dizer?

O que a autora quis mostrar com esse documentário é que a realidade pode ser criada. De fato foi mostrado o ataque dos zumbis, uma organização não-governamental que lutava para defender as pessoas destes seres foi ouvida e outros “especialistas” que embasavam a idéia de que os mortos estavam de volta á vida, tudo como acontece em um documentário ou em uma matéria jornalística, mas era tudo falso.

O livro de Brooks de fato existe mas é claro que é uma obra ficcional. Camila queria fazer algo diferente em seu TCC e como já conhecia o livro usou-o para criar esta história. “Eu não gostava dos produtos convencionais, aquelas coisas que sempre aparecem nas conclusões de curso de jornalismo e resolvi fazer um documentário sobre zumbis. Eu gosto de zumbis, filmes e livros , foi do livro de Max Brooks que eu tirei a idéia do projeto. Foi divertido fazer isso. Eu passei o ano achando que minhas chances de reprovar eram grandes. Eu prefiro a fundamentação teórica, mas não sei se o resultado seria o mesmo sem o documentário. A parte escrita e o produto são bem complementares. Mas na verdade o melhor resultado foi ver a cara de algumas pessoas assistindo aquilo e aceitando”, comenta Camila.

Para fundamentar seu trabalho, a autora recorreu a um estilo diferente de documentário: o mock-documentary, um estilo de documentário que constrói uma realidade com os elementos do documentário. Para Camila esta foi a maior dificuldade do seu TCC. “Provar que meu falso documentário é um produto jornalístico foi a maior dificuldade que eu tive. Afinal, ele mostra que as convenções usadas em muitos documentários considerados sérios podem ser subvertidas. Outra dificuldade foi achar material sobre falsos documentários”, conta.

Existem três estilos de mock-documentary, e todos estão presentes no trabalho (veja no box na página z). Este estilo de documentário foi utilizado pois mostra a fragilidade da estrutura da construção da realidade proposta pelo jornalismo. Se é possível usar esta estrutura para fazer uma história absurda como a dos zumbis, não é também possível que uma matéria jornalística, que utiliza da mesma estrutura, seja falsa? É este o grande questionamento do estudo.

E agora?

Este texto começou com uma história de mentira e depois passou a contar a verdade. Será? Como podemos confiar que tudo que vemos de fato aconteceu, que aquilo não é apenas uma história criada para nos iludir? Segundo a autora não devemos ficar pensando muito nisso, devemos apenas saber que há de fato uma manipulação naquelas informações. “Eu acredito que todo produto reflete, de alguma forma, a opinião e as escolhas de seu autor/diretor. Eu sugiro que nem tente tentar identificar esta construção, só acredite no que você viu, sabe, tem como provar. O resto é resto ou diversão”, comenta.

Ainda segundo a autora, é muito difícil existir um documentário que não possa ter sua credibilidade subvertida. “Depende de quem analisar ou interpretar o produto. A maioria dos públicos não percebe o que pode ou não ser manipulado ao ver um documentário convencional, no entanto, quando um documentário é claramente falso, as pessoas têm mais facilidade de assimilar como aquelas informações foram manipuladas. O falso documentário dificilmente engana alguém por muito tempo, dá pra dizer que é o formato mais verdadeiro”, afirma Camila. Ou seja, se o documentário for de fato verdadeiro, resistirá a questionamentos ou a prova do tempo.

Camila ainda conta que o próprio jornalismo se utiliza disto. “Alguns artifícios usados já são praticamente clichês. Figuras sérias e respeitáveis transmitem notícias, a voz das narrações fala com convicção, música, iluminação e edição de imagens criam o clima desejado. Até animações e reconstruções de fatos são associadas a acontecimentos e processos com a mesma seriedade que teriam as imagens feitas no momento em que tais fatos e processos acontecem”, finaliza a autora.

Se você ainda acha que esta história de construção da realidade é uma bobagem e que nunca seríamos enganados por algo tão falso como ataque de zumbis, saiba que algo semelhante já aconteceu. Em 1938 o norte-americano Orson Welles fazia um programa de rádio em que fez uma adaptação do livro “A Guerra dos Mundos” de H.G Wells. As pessoas que ouviam o rádio achavam que o relato era verdadeiro, e que de fato alienígenas estavam invadindo a Terra, criando pânico e histeria. O que o estudo mostra é que devemos sempre desconfiar do que nos é passado e não pensar que aquilo é a verdade absoluta, assim com dizer que de fato os zumbis não existem.

O mock-documentary está dividido em três estilos que são:

1 – Paródia
É uma documentário paródia que usa os mesmos elementos de um documentário comum mas de uma forma cômica.

2 – Crítica
Apesar de também ser ficção, este estilo se preocupa mais em fazer com que o espectador reflita sobre como os assuntos são abordados pela mídia

3 – Desconstrução
Estes documentário são mais focados em uma crítica ao próprio modelo como são feitos os documentários.

Fonte: Jane Roscoe e Craig Haight, Faking it: Mock-documentary and the
subversion of factuality.